Tuesday, March 16, 2010

'Cause I'll Be Dancing

Vamos lá pôr os pontos nos iii... Comparada com a maioria dos meus amigos, eu sou musicalmente ignorante. Aquela gente tem gigas infinitos de música no PC, conhece mil e um artistas (ou mais!), nomeia álbuns e singles e músicas que estão a dar em qualquer contexto social, em suma, fazem-me sentir reles e burra no que diz respeito a esta arte. Mas, e porque eu sou uma pessoa decladaramente fã da relatividade das coisas, tenho noção que, ao pé de grande percentagem das gentes que por aí circulam, a minha cultura musical parece enciclopédica. Mais não seja porque a variedade de pessoas com que me dou fez-me conhecer uma grande variedade de artistas e músicas, que me permite encaixar razoavelmente bem na conversa de fãs de diferentes géneros.

Com isto em mente, há que saber que, por estes motivos e outros, sempre me considerei, de certa forma, uma espécie de music snob. Não tenho perfil para rebaixar por aí além os gostos musicais dos outros (a não ser quando adoram a Britney Spears ou algo do género... I mean, come on!!), mas há sempre aquela sensação idiota de arrogância por ser fã dos Beatles e abraçar a música da Tori Amos como se fosse minha. O narizinho empina-se ligeiramente por a colecção de CDs lá de casa exibir nomes como Jeff Buckley, Pearl Jam, Wolfmother, The Verve, Rufus Wainwright, Maria Rita, Sigur Rós, The Dresden Dolls... Claro que não dá para esquecer que a Internet fez o mundo ter acesso a mais e melhor música e por isso a estes se juntam amores por Emilie Simon, Kate Nash, Regina Spektor, MGMT, Yann Tiersen... Coisinhas boas, portanto.

Dito isto, e depois de muitos meses de conflito interior, eu cedi. E cedi porque o raio da música é indiscutivelmente catchy e atrevo-me a dizer que tem qualidade, quer em termos de melodia, quer no que toca a lyrics. Há que confessar que o momento que me fez passar de fã da música a fã da pessoa foi o momento 4.39. As coisas que se descobrem sobre nós mesmos...

Na altura em que primeiro me pronunciei aqui sobre a Lady GaGa, gostava da Bad Romance e pouco mais. A música dela não me dizia nada. Hoje, gosto do álbum (álbuns? The Fame+The Fame Monster) praticamente todo. E adoro ainda mais completamente a senhora.

Mas o que venho partilhar aqui hoje é a fabulosidade extrema do último vídeo dela.



Eu não sou culta o suficiente para absorver tudo o que se passa nestes 9.32 minutos de mensagens subliminares e conseguir passar-vos a ideia completa, mas quero tentar, nem que seja porque acho que o Mundo tem de perceber que a Lady GaGa é mais do que o choque e a controvérsia. A Lady GaGa tem algo a dizer e di-lo à sua maneira. Tem coragem suficiente para isso.

E portanto posso dizer-vos que a data de entrada da GaGa na prisão é uma homenagem ao amigo Alexander McQueen, estilista falecido precisamente nesse dia. Dá para vos dizer que a variedade de formas e estilos femininos na prisão é uma exaltação não só à mulher, mas é também um piscar de olho à comunidade LGBT, que a GaGa tanto adora. Dá para vos dizer, em completa adoração, que a GaGa nua contra as barras de ferro da cela, com as guardas a dizerem "I told you she didn't have a dick" é ela a gozar na cara da comunidade internacional por um rumor tão disparatado ter circulado tão insistentemente desde que a sua fama disparou.

Dá para informar as pessoas não tão fãs da Lady GaGa (ou seja, quem só conhece os singles), que a música que está a passar no rádio, no pátio da prisão, é dela também e se chama Paper Gangsta e é, entrelinhas, nada mais nada menos do que um hino a mais uma das mensagens que a GodGa tenta passar: "cause I do not accept any less than someone just as real, as fabulous" (nunca se contentem com o que é apenas razoável ou suficiente - eu aprendi sozinha, mas dá para aplaudir a GaGa à mesma).

Dá para dizer que os óculos feitos de cigarros (em diferentes estádios de consumo) e o telemóvel com o logo evidente da VirginMobile, são os primeiros indícios de uma longa lista de publicidade descarada a produtos reais e imaginários. Ao que parece, foi a GaGa que pagou o vídeo e teve de arranjar patrocinadores para alimentar tão cara produção. Óbvio que, estando nós a falar da Lady GaGa, ditos produtos surgem no ecrã de forma original (penteado com latas de Diet Coke? win!) e, logicamente, a publicidade a produtos imaginários é, em si, uma sátira à dependência que a arte tem do dinheiro.

Pessoalmente, pouco percebo de maquilhagem e não pretendo perceber mais do que o menos que essencial, mas consigo dizer-vos que a GaGa usa e abusa da maquilhagem, não para parecer mais bonita, mas para parecer mais artificial e estranha. Não há muitos artistas por aí que tentem parecer menos atraentes do que na verdade são.

Não há muito a dizer da sequência de dança que começa no minuto 3.19 a não ser que me deixa muito contente, porque inclui a GaGa e quatro bailarinas a percorrer um corredor da prisão em lingerie. Acho que é possível tirar ilações do facto de as bailarinas treparem as grades enquanto a GaGa simplesmente caminha, mas a minha inteligência não chega tão longe. Fez-me lembrar os macacos alados do Wicked e como nem trepar até ao topo lhes concedia liberdade.

A Lady GaGa vestida com a fita amarela das cenas de crimes... Não sei que significa. Eu apostaria numa referência ao CSI e a séries policiais do género, mas parece-me demasiado óbvio.

A guarda prisional que consulta o site de online dating (Plenty of Fish, existe mesmo!) é um shout-out à própria GaGa, que segundo a Q Magazine de Fevereiro se descreve como "a loser in love and an emblem to the people who feel innately insecure, not sometimes, not just in adolescence, but always". E não, não estou a dizer que ela vai a sites para encontrar potenciais interesses românticos. Estou apenas a dizer que ela se considera "a loser in love" (so do I!) e que orgulhosamente o partilha com os milhares iguais a ela.

O passo de dança à saída da prisão? Totalmente Michael Jackson. Se a Lady GaGa se apresenta como símbolo pop, homenagem ao Rei é indispensável.

Pussy Wagon e Beyoncé... *orgasmos visuais e culturais* O Pussy Wagon é referência descarada ao Kill Bill e ao Tarantino (o próprio tom satírico do vídeo tem muito do realizador). Mais do que referência descarada, o Pussy Wagon do vídeo é o Pussy Wagon do filme.

"You've been a very bad girl. A very, very bad, bad girl, GaGa."

*dies* Eu odiava a Beyoncé, percebem? Já não dá para odiar mais, depois disto e da All the Single Ladies (imortalizada no 1x04 de Glee). Não percebo a questão da sanduíche que elas partilham. Sugestões? Eu arriscaria dizer, visto que a Honey B a lança ao chão antes de arrancar e se vê o invólucro, que é mais um momento de publicidade descarada a alguma coisa (não consigo perceber a marca).

"You know what they say, once you've killed the cow, you gotta make the burger."

Yes, God, yes, YES! Não bastava Tarantino, tínhamos de ter duas das maiores artistas femininas do momento a emular esse clássico indisputável que é Thelma&Louise, em que duas mulheres se juntam na adversidade e juntas são mais fortes. Raios me partam que até este vídeo desconhecia que havia uma feminista escondida dentro de mim!

"You know, GaGa, trust is like a mirror: you can fix it if it's broke."
"But you can still see the crack in that motherfucker's reflection."

Ah, claramente a GaGa fez parte da escrita do argumento...

Já referi que a Beyoncé está linda? Pois que está. E há um subtexto claramente lésbico em todo o convo entre as duas, mas lá está, como eu referi anteriormente, a GaGa adora os seus fãs LGBT e há vários momentos no vídeo em que a diferença, pelo menos no que concerne a sexualidade, é louvada.

Não sei que significam as fotografias... Gostava de saber. Mas é bonito e é algo muito comum nos dias que correm, entre amigos, entre amantes... Vivem-se aventuras, tiram-se fotografias. O facto de ser uma Polaroid talvez simbolize o culto do imediato que a sociedade actual instiga e favorece.

E eis que chega a parte que não percebo muito bem. Ainda estou à espera que as americanas da minha vida me dêem luz sobre este assunto. O facto de ser um Diner, ainda por cima no meio de nenhures, e haver bandeiras americanas espalhadas aleatoriamente como adereços faz-me supôr que estamos perante alguma forma de crítica à América ou, pelo menos, à América interior.

Pausa para referir que, depois desta longa análise, a Lady GaGa estava na prisão por ter morto o namorado no vídeo da Paparazzi e o vídeo da Telephone é ela a unir-se à Beyoncé para matarem o namorado desta e ficarem juntas. A arma escolhida é veneno, porque bem, veneno é uma metáfora comum no universo GaGa. Veneno social e cultural em que vivemos, que consumimos. (Poison e Poison TV são exemplos de publicidade a produtos inexistentes, btw.)

6.18 Chapéu feito com telefones! Go, GaGa! E lá vêm as sandes e as baguetes de novo... Símbolos fálicos?

Mais uma vez, chamo a atenção para a maquilhagem da GaGa, que não a torna mais bonita, pelo contrário. Há um olho que parece bastante maior que o outro e, embora a senhora não seja a rainha das simetrias, não é nenhum Quasimodo! Já agora, sublinho a inexpressividade dela em toda a sequência de dança e posterior homicídio em massa. Adoro.

Há que reparar no pormenor delicioso de o veneno estar no mel. Wink, wink, Honey B.

7.41 Sequência de dança em que elas têm peças de roupa com bandeiras americanas. E eu gostava de saber porquê. Bah. Dança gira, no entanto. Adoro, adoro a expressividade das mãos nas coreografias feitas para a GaGa. As mãos nunca são graciosas ou flutuantes, querem arranhar ou agarrar ou esmurrar ou demonstrar alguma coisa.

GaGa vestida de leopardo a dançar contra o Pussy Wagon? Não faço ideia que significa.

O final com a GaGa a prometer em sotaque do Midwest que fica com a sua Honey B e que nunca mais vão voltar? Fuck yeah, it's gay AND Thelma&Louise!


Quando vi este vídeo, senti que estava a assistir a algo marcante na história dos videoclips. Não digo que seja um Thriller, que por si só alterou a definição pré-estabelecida dos music videos, mas é algo diferente e poderoso e arrebatador.

Quando vi este vídeo, senti, senti verdadeiramente, acreditei, pela primeira vez na minha vida (e é uma vergonha para mim admiti-lo), que as mulheres podem ser tão ou mais fortes e inteligentes que os homens. E terem toda a legitimidade para tal.

Obrigada, GaGa. And people wonder why I love you this much?

MJNuts

Sou uma snobe musical, sim, sou um pouco, mas nunca vou ter um pingo de vergonha de mostrar abertamente a admiração imensa que sinto pelo teu trabalho e por ti enquanto artista.

8 comments:

Duriel said...

Também admiro muito a senhora...! Mas de uma maneira diferente que tu I guess, porque não sinto esse "feminismo" =p

Num episódio How I met your mother, a "sandes" e partilha da sandes é usada para simbolizar ganza... Mas duvido que seja o caso!

Morcegos no Sótão said...

Eu não a adoro só pelo feminismo, sim? :) Esse foi um motivo que só descobri com este vídeo!xD E não sei se é bem feminismo, é difícil explicar... Ela foge aos papéis de género femininos, sendo muito feminina à mesma, e ao fazer isso, mostra o poder que o género pode ter.

Isto é confuso. lol

Fico contente que também gostes dela! :D

MJNuts

Pintas nos Olhos said...

É pena só acreditares agora "que as mulheres podem ser tão ou mais fortes e inteligentes que os homens".

Mais vale tarde do que nunca I guess..
Obrigado por teres explicado o clip lol que eu quando eu vi fiquei: aaa... o que é que se passou aqui???! lol

Blaze said...

Tive a adiar a leitura deste post gigante :P
Gostaste de esmiuçar este post, não?
Pessoalmente ainda não engoli a música, mas depois disto vou tomar mais atenção, mas Bad Romance ainda está no meu <3

Anonymous said...

Ainda bem que existem posts como estes!! Avé Maria! Farto-me de dizer que a Lady Gaga é uma artista estrondosa, mas sou gozada com esta minha opiniao... este mundo está perdido! Grande Gaga... e grande Beyonce, que estão a revolucionar a música e os videos clips!
Beso, Cat :)

Morcegos no Sótão said...

Ah, Cat, também partilhas deste meu amor?? :D Fico feliz, é porque sabes o que é bom!xD Deixa-os gozarem à vontade, gostam dela em segredo, é uma vergonha! :P

MJNuts

PP said...

O video esta mto bom!! Adoro a influencia "tarantina"!! Gostei da avaliaçao dos pormenores q provavelmete nao daria significado mas acho q os q deste estao mt bem! E sim a GaGa é qq coisa!!

Guess said...

Ah, e eu não consigo! Eu bem tento, mas não dá p'ra não gostar. Aqueles "eh eh eh eh eh" ficam aqui e não saem facilmente.

Aquele passo de dança no corredor da prisão, enquanto ela canta os "eh eh eh eh eh" também é hipnotizante.

A Beyoncé, no fim, naquele quarto a ficar presa em frames repetidos durante os "eh eh eh eh eh" também é algo visualmente inquebrável.

Está bom, sim.

Parece que ela vai fazer um filme com o Tarantino! xD