Tuesday, September 8, 2009

Comforting Sounds (O Cemitério de Benfica à Noite)

Eram uma e tal da manhã quando, ontem, subimos por aqueles caixotes e saltámos os muros altos do Cemitério de Benfica.
Uma pequena estátua da Virgem Maria descansava sobre aquele muro altíssimo.
Um passeio que deve ter durado pouco mais que uma hora em que me desafiei a mim próprio a sentir-me cem por cento confortável e relaxado naquele lugar.
Forçámo-nos a ir a todos os cantos daquele cemitério gigante, especialmente aqueles que não nos agradavam visualmente e não nos inspiravam confiança.
Confirmámos que todos os estereótipos que os filmes nos mostram sobre os cemitérios à noite são tudo verdades. As sombras, os corvos, as intermitentes lâmpadas vermelhas das campas, os barulhos não identificáveis, as luzes ligadas de salas preferencialmente vazias, os corredores largos e intermináveis, protegidos de ambos os lados por árvores de tronco espesso, as formas estranhamente humanas que identifcamos no escuro, a lua quase cheia que ilumina as lápides.

Dizíamos não ter medo, mas nunca ninguém consegue ficar indiferente a sons que surgem bem perto de nós.
Dizíamos não ter medo, mas aquelas lâmpadas vermelhas e pequenas, que iluminam as lápides, criam um espectáculo arrepiante.
Dizíamos não ter medo, mas era sempre perturbador reparar como zonas do cemitério faziam lembrar pracetas ou ruas habitadas por pessoas vivas.
Conseguimos o nosso momento de paz, é verdade. Sentámo-nos os três num banco, que nos entregava uma vista macabra para um longo descampado, onde os mortos sem dinheiro mereciam apenas um pedaço de terra e uma tabuleta com um número identificativo.
Conseguimos ficar sentados alguns minutos sem proteger as nossas costas.

Quando nos levantámos, nenhum zombie com a respiração pesada aguardava que reparássemos nele.
À medida que nos aproximávamos da saída - entenda-se, o lugar onde secretamente trepámos o muro - o nosso passo aumentava de ritmo. Ouvíamos sons cada vez mais estranhos. Flores nas portas de jazigos pareciam-nos mãos de pessoas a tentar sair, caminhos começavam a não ter saída.
Encontrámos o lugar por onde entrámos e demos uso a um daqueles escadotes metálicos, necessários para o manuseamento das gavetas dos mortos.
A última pessoa escolhida para abandonar o local teme sempre que algo de errado aconteça e não haja tempo para escapar.
A Virgem Maria continuava no seu lugar, à nossa espera.

Os cemitérios são lugares bonitos. À noite continuam a ser bonitos e são, na verdade, mais seguros que qualquer outro parque público em Lisboa.
Talvez faça parte daquela beleza horrível, mas a mim não me agradam as falsas velas. As pequenas lâmpadas que funcionam através de energia e simulam velas de verdade. São feias. Estão quase sempre intermitentes.
Talvez tenha sido por isso que, quando voltámos ao muro de gavetas, que foi a nossa porta de entrada e de saída aquela noite, estava uma vela de verdade acesa.Iluminava suavemente a gaveta de onde estava suspensa.
Eu tenho a certeza, e ninguém me tira esta certeza, de que quando entrámos para o cemitério, uma hora antes, aquela vela estava apagada.


Guess