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Sunday, March 27, 2011

Falso ídolo


Que feitiço é este, o do enamoramento?
Onde vejo falhas, vê perfeição. Onde vejo horrores, vê salvação. Onde vejo mediocridade, vê excelência. Onde antevejo repulsa, sente desejo.
E que pena quebrá-lo. Que tragédia perder esse olhar, de inevitável precariedade, sobre mim. Não mais vai existir essa centelha a arder por mim lá fora, no mundo frio. Não mais haverá alguém a sonhar com um alguém que não vejo mas que em mim vê. Um olhar terno sobre mim. Sou tentada a alimentá-lo, a atiçar a constância desse fogo e banhar-me no calor projectado por essa imagem durante um pouco mais. Só mais um pouco.
Um toque. Um olhar. Um sorriso. E o banal sente-se como calculado. Natural e antecipado, miscigenados. As palavras saem-me vazias mas cheias de intento. E mexer-me sabendo que quem me olha contempla uma divindade e não mais um ser humano. E andar sabendo que olhos parciais me seguem e me apreciam e nos meus gestos vêem graça. Mel escorre dos meus dedos e a visão da minha língua atiça outra e formiga a pele. O meu riso ecoa e reverbera no oco de outra mente. Sou reverenciada. Idolatrada. Não quero mas sou querida. Não olho mas sou olhada. Não sinto mas sou sentida.
Que feitiço é este, cujo reflexo me enfeitiça também a mim? Encaro-me e, no mais fugaz dos instantes, vislumbro-a, a deusa. E também o meu olhar se cobre de brandura. Enfeitiço-me. Pondero amá-la. Pondero sê-la.

Lili

Monday, December 13, 2010

Espaço positivo


Sentada sobre as minhas pernas pondero a minha existência. A pressão da All Star nas minhas nádegas leva-me a contemplar o meu cadastro comportamental.
Das palmas dos meus pés chegam-me ecos já muito ténues de queixumes que denunciam o uso excessivo das botas de salto alto, no dia anterior. Informam o meu cérebro de que este constante alternar de alicerces é algo desagradável e que gostariam que a situação fosse, se possível, rectificada. Contentar-se-iam até com pequenas concessões da minha parte, quiçá evitar o transporte de objectos pesados enquanto sujeitas a esse tipo de calçado.
O meu gémeo direito informa-me, com uma sucessão de picadelas em crescendo, em jeito de código Morse, que estou prestes a perder uma parte substancial da sua funcionalidade. Não aprecio o tom condescendente, de quem já não vê utilidade em notificar-me pois vou simplesmente deixar-me estar e dar-me por surpresa quando, ao erguer-me, me vir subitamente perneta. A soberba do membro inferior!
O meu pé esquerdo, já desprovido há muito da sua prisão de pano e borracha, acaricia o chão num movimento pendular, agradecido pelo contacto gentil com a superfície fresca e polida. A maioria das partes do meu corpo, se sujeita a sufrágio universal, escolheria terapêutica de frio. O meu pescoço talvez discordasse. Nariz contra, com certeza. Sei que as coxas votariam em branco, para preservarem a sua modéstia. Evitam expor-se.
Que estava eu a dizer?
Contemplava a minha existência.
Um suspiro profundo e raspar de unhas no couro cabeludo, que invariavelmente se transforma num enlaçar de falanges pelo cabelo, traduzem a resposta do meu corpo a este recorrente exercício mental. “Inútil”.
Cala-te. Que sabes tu?
Os meus ombros e pescoço sabem que a minha postura é deplorável. Endireito-me. Sinto os seios a bater na mesa. De Inverno pesam-me. Arrumo-os sobre a mesa e esqueço as exigências vertebrais.
Apoio o cotovelo direito na mesa e a têmpora no carpo. Olho para o ecrã na diagonal.
Apoio o cotovelo esquerdo na mesa e o queixo no carpo. Olho para o ecrã de cima.
Mordo os lábios. Molho os lábios. Faço uma careta. Encarquilho a cara e agito o nariz. Bocejo de boca aberta e a língua sobe-me ao céu-da-boca. Visualizo a imagem vaga e modelo que o meu cérebro atribui a um gato. Sempre sou felina em qualquer coisa. Ou tornei-me? Sempre bocejei assim? Não me parece. Agora sempre bocejo assim.
Bocejo novamente, desta vez fecho também os olhos. Coço-os. Também eles se queixam. A única atenção que lhes dedico é agressiva e invasiva. Não apreciam as visitas perfuradoras dos meus dedos indelicados e das minhas unhas amoladas. Muito indignados, retrucam que apenas se manifestam por desleixo na minha higiene ocular. Eu sou a culpada das minhas maleitas. Já sei do que falam. Escarafuncho um pouco mais para os calar.
Mapeio o rosto. Sinto as suas protuberâncias e irritações. Oleosidade. A minha auto-estima projecta um mapa topográfico severo. Suspiro de desalento.
Contemplo a persistência da existência. A tenacidade do meu conjunto.
Levanto-me.

Lili

Monday, October 25, 2010

Elogio do Amor Puro

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho ...para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que eu quero é fazer um elogio do amor puro.

Parece que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoais meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado e foi para Liverpool.

Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se.

Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, babanóides, borrabotas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilibrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, apancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, fado, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.

O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente.

O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.

Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperante. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura uma vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Miguel Esteves Cardoso, in Expresso

MJNuts

Tuesday, September 28, 2010

How to be Alone

Quero partilhar esta pequena maravilha convosco, que a Lili teve a excelente ideia de me mostrar...



Acho que é importante sabermos estar sozinhos. Sempre achei. Também acho que nunca soube expressar muito bem essa ideia e portanto este vídeo fá-lo melhor que eu...

Temos de valer por nós mesmos, temos de gostar de nós por quem somos. Temos de primeiro conhecer o mundo que vai cá dentro e amá-lo, antes de nos podermos atirar ao mundo lá de fora e esperar ser amados de volta. E, enquanto o fazemos, há pequenas coisas que tornam tudo melhor. Às vezes esqueço-me de umas quantas. Mas gostei de me lembrar do conforto que é estar sentada sozinha num banco de jardim, da companhia que faz um livro num cafézinho ou do quanto fará alguém feliz ir escrever cartas para uma biblioteca...

MJNuts

Amizade

"A amizade é a única relação afectiva incompatível com a ambivalência. Já vimos que, no enamoramento, podemos odiar a pessoa amada. Podemos ser ambivalentes em relação aos nossos pais ou aos nossos filhos. Não podemos, ao contrário, ser ambivalentes em relação aos amigos. Se no-lo tornarmos, a amizade sofre e, se a ambivalência continua, desaparece. É este, provavelmente, o motivo pelo qual os amigos preferem ver-se de quando em quando, quando têm vontade, em lugar de viverem juntos. Uma convivência contínua cria, inevitavelmente, motivos de dissabor, de ressentimento, pequenas coisas que, no entanto, somando-se, se podem tornar grandes. A convivência tende a consolidar as relações afectivas mas, ao mesmo tempo, divide. Os enamorados escolhem esta estrada e este risco porque tendem à fusão. A amizade, pelo contrário, prefere renunciar à fusão a favor do encontro. O encontro é sempre positivo. A amizade é uma filigrana de encontros, não é ambivalente."

Francesco Alberoni, A Amizade



MJNuts

Thursday, September 23, 2010

Maçanetas

Aos meus 18 anos, numa noite fria das férias de Natal, tradicionalmente passadas no Alentejo, algo me atingiu. Não sei como lhe chamam os especialistas no assunto. Quando toda a casa silenciou e só a luz junto a mim a iluminava, fui atingida por um raio de inspiração. Era uma história que tinha de ser contada, para a qual eu já tinha alguns planos, mas nessa noite as ideias invadiram-me e escreveram-se sozinhas. Durante horas a fio, ao som de músicas a que eu chamo fantasy-inducers (e este fantasy refere-se ao género literário), escrevi mais de vinte páginas de uma história em que nunca mais voltei a pegar, mas que ainda não esqueci.

Ontem, e porque me sinto a regressar a uma parte de mim que gostava e que durante anos deixei dormente, peguei nos cadernos, e depois nos ficheiros de computador, e voltei a ler o início de uma história que só a mim pertence.

Ainda hoje me admiro com a força daquelas palavras. Hoje espanto-me com o facto de uma miúda de 18 anos ter conseguido descrever tão minuciosamente a criação de todo um mundo, de toda uma mitologia.

Há partes de mim que eu não devia deixar fugir. Deve ser por isso que nestes dias cai sobre mim uma felicidade serena de quem sabe que é bom a leitora e escritora em mim estar de volta.

Como de todas as vezes que reli, a minha passagem preferida é a mesma:

"Garieth vestiu-se e dirigiu-se à porta. No interior dos pálacios, reparou então, tal como no interior das pequenas casas, as portas têm maçaneta. Pousou lá a sua mão e pressionou."

Não sei se é pelo contexto na história, se é pela mensagem que me transmite. Uma mensagem que só aos 24 anos associei ao provérbio italiano: "No fim do jogo, o rei e o peão vão para a mesma caixa".


Começo a aperceber-me que, mais do que gostar das infinitas coisas que nos fazem diferentes, aprecio as coisas mínimas que nos fazem iguais e que nos esquecemos de valorizar.

MJNuts

Thursday, September 16, 2010

Permanências

"Acredito que alguém que já foi importante na tua Vida dificilmente te sairá da memória por anos e até décadas, que a distância não é factor decisivo numa amizade, que o tempo também não será a desculpa para o fim e o silêncio não será definitivamente sinal de esquecimento... "

Tirado daqui.

MJNuts

Wednesday, September 15, 2010

Tudo o que podemos exigir




"See my side and I'll see yours better."





See my side, Jordin Sparks

Lili

Friday, September 3, 2010

?

"Viver é muito frustrante porque somos sempre uma versão mais estúpida do nosso Eu futuro!"

A Lili às vezes é brilhante.

MJNuts

Saturday, May 29, 2010

Reflections of a Skyline

Tenho a sorte de ter amigos cultos que partilham comigo as suas descobertas. Quando este vídeo me foi apresentado, tive preguiça em vê-lo, como muitas vezes. Mas lá me forcei a fazê-lo, porque a pessoa merecia, porque a conversa precisava disso.

É das coisas mais bonitas, mais simples, mais clara e desesperadamente verdadeiras em que já pousei o olhar... Da primeira vez, fixando o ecrã, sentindo a música percorrer-me a espinha, estive arrepiada o tempo inteiro. Agora, continua a deixar-me impressionada com a sua vulnerabilidade.



Se por acaso alguém tiver dificuldade com o inglês só de ouvido, o vídeo está aqui com legendas em inglês (apesar de ligeiramente dessincronizado).

Tem de ser visto. Porções de humanidade não se podem perder.

MJNuts

Friday, April 9, 2010

The Same Story

"People go on repeating the same thing, again and again. If you look at the faces of people in the world, you will be surprised: Why do all these people look so sad? Why do their eyes look as if they have lost all hope? The reason is simple; the reason is repetition. Man is intelligent; repetition creates boredom. Boredom brings a sadness because one knows what is going to happen tomorrow, and the day after tomorrow... until one goes into the grave, it will be the same, the same story."


MJNuts

Sunday, March 21, 2010

Percursos Interiores

Acho alguma piada ao facto de, com pouca ajuda de livros ou professores ditos espirituais (porque a verdade é que só li metade do The Power of Now e em mais nada peguei...), eu acabe por chegar sozinha a caminhos que eles indicam como certos. Não sei como isso me faz sentir. São sempre caminhos que doem e que muitas vezes me deixam insegura do que estou a fazer, se estarei a agir da melhor forma, se não estarei a expôr-me demasiado e a correr o risco de ser magoada... São caminhos que doem e me fazem ponderar se vale a pena esse risco.

Às vezes, duvido de mim e não quero ser assim. Às vezes, quero passar a ver mal no mundo e nas pessoas e quero que coisas mínimas me chateiem como parecem chatear tanta gente. Às vezes, quero saber desistir quando toda a gente me diz que já é hora de o fazer, em vez de continuar a perseguir sonhos e ideais (e pessoas), tornando esse processo uma "humilhação", como lhe chamam. Não posso dizer que seja uma vitória minha não ser assim. Há muito de natureza pessoal aqui, para não falar numa enorme dose de teimosia assente na crença que o meu comportamento não tem de ser uma resposta ao comportamento dos outros e na recusa em contentar-me com algo que não seja o melhor que posso ter/fazer/ser. Sim, também tenho fraquezas (muitas) e defeitos (ainda mais). Mas nunca o que é negativo tem de se sobrepôr ao que é positivo. Aliás, nem nunca deve.

Assim, e apesar de tudo, quando passeio nas internetes e encontro discursos de líderes espirituais, não consigo deixar de sorrir e pensar que, afinal, talvez esteja mesmo no caminho certo.

"A fool is one who goes on trusting; a fool is one who goes on trusting against all his experience. You deceive him, and he trusts you; and you deceive him again, and he trusts you; and you deceive him again, and he trusts you. Then you will say that he is a fool, he does not learn. His trust is tremendous; his trust is so pure that nobody can corrupt it. Be a fool in the Taoist sense, in the Zen sense. Don't try to create a wall of knowledge around you. Whatsoever experience comes to you, let it happen, and then go on dropping it. Go on cleaning your mind continuously; go on dying to the past so you remain in the present, herenow, as if just born, just a babe. In the beginning it is going to be very difficult. The world will start taking advantage of you...let them. They are poor fellows. Even if you are cheated and deceived and robbed, let it happen, because that which is really yours cannot be robbed from you, that which is really yours nobody can steal from you. And each time you don't allow situations to corrupt you, that opportunity will become an integration inside. Your soul will become more crystallized." - Osho

MJNuts

Friday, March 5, 2010

Sonhos

Confundo os sonhos com as memórias. E as memórias com os desejos. E os sonhos são desejos que eu não sabia que tinha.

Surgem assim, indiscretos. Não os quero ter e repudio-os. Mas tomam forma em mim e despertam as lembranças apagadas. Incendiam os laços escondidos.

E é mentira, é segredo. É possível, faz sentido? Posso ter, quero ter?

As emoções são uma teia perigosa. Aquilo que não se pode controlar é uma fonte inesgotável de dores absurdas. O que não se pode contar é uma bomba prestes a implodir.

O que fica cá dentro é um universo de novelos. Nós e pontas soltas. Linha desfiada. Posso fazer deles uma peça?

Não há como evitar, só há como aceitar. E enfrentar e ultrapassar. E é um sonho que se perdeu, que nunca se desejou. E que surgiu de um sorriso.

"Vi um sorriso que lembrava o paraíso"

Os olhos brilham. Não há beleza maior que um olhar brilhante. E as mãos protegem.

Todos os gestos começam nas mãos.

MJNuts

Isto, na verdade, foi escrito há quase três anos... Acho curioso ver como há padrões de comportamento tão persistentes.

Monday, February 15, 2010

Love is the stuff that dreams are made of

E só porque este artigo é fabuloso e merece ser partilhado...

"I had a dream the other night that my brothers and sister were dead. Tear-sullied and tired, I awoke from the nightmare praying that God would take me instead. It was my love for them that made me despair. But the light of Love’s custody soon softened the terror until all I could feel was my heartbeat hammering against the darkness.

It’s a funny thing, a heartbeat. Sometimes you feel it, and sometimes you don’t, but it’s always there, silently sustaining you with the very stuff that life is made of. A humble hero and a constant companion, Love is patient with me, and it keeps its hold on me. No matter the swagger I walk with, every step I take is somehow instep with the tempo of Love. It’s always breathing in the background, an ambient heartbeat not unlike my own, but owned by no one, rather, resolute in its endlessness.

This Love is not that cardboard imposter of the kind you find stocked high in Hallmark aisles. I call that creature “little-L” love, that’s “little” as in “I have little time for you,” and “L” as in “lackluster,” “lifeless,” or “lugubrious.” No, this “little-L” love is not truly love. It’s not actually love in the same way that leggings are not actually pants. This “little-L love,” like the leggings-only look, possesses all the cuteness of a rotting elephant carcass. And real Love is most definitely not a rotting elephant carcass. Neither is Love a waxy heart-shaped box filled with waxy heart-shaped candies encased in stale and petty adulation. No, that is certainly not love.

So what exactly is the real stuff, this plain old Love?

One thing Love isn’t is easily describable in 800 words or less. No, Love is not a sentence or a paragraph. It’s more like a cello, that stringed sage who in a single note resoundingly sings all the truths of this strange existence. Or like a trumpet laughing beneath a subway grate, happy and profound, distinctive, both imminent and afar.

Love is like the mantle of stars, neither frightened nor silenced by the surrounding desolation, but illuminated by the vast ocean of darkness upon which it sets its sails. It is a gentle ember with an inextinguishable spirit, persevering against the weight of destruction and despair, always with the purpose of finding those who seek safe passage, of being found itself, of undertaking this strange and beautiful sojourn in communion with its voyaging passengers.

Love isn’t easy. For example, I love Herodotus, sure, but spending 700 pages with him in one sitting can put a certain stress on our relationship. I think the same is true of Love. It doesn’t help that we have this habit of constantly colliding into each other, of bumping and bruising and breaking ourselves and others. And the resulting pain often makes us wonder if Love isn’t leading us to a 600-foot plunge off a sheer cliff face into a fiery pit of hungry, flesh-eating bears. Sometimes Love feels more lethal than lovely. Love keeps me up at night—it makes me cry, and it makes me fear. But my courage is childlike—I possess a dreamer’s imagination and a lover’s heart. It is instilled with this heart and mind that every time I fall, I drive my hands down hard onto the ground and I lift myself onto my knees and there, kneeling in love for Love itself, I cry out for it to save me. And somehow, Love always does.

Love sees me coming from a long way off, and it runs out to greet me with a strong embrace. It’s had its hand on my shoulder since before I knew my name. Love sits with me in silence when I don’t feel like talking. It’s funny when I’m sad, and it’s silly when I’m serious. Love rights my ship, for it is my ship, docked and waiting in the places where I harbor my greatest desires. Love sends me sailing off into the unknown of adventure. I often look at Love, not always knowing quite what to think, not even knowing exactly what it is. Sometimes I look at Love with anger and disdain, or with fear and uncertainty, with pain and with doubt. But every day, whether I mean to or not, I stare Love in the face. Every day, I look at Love. And Love smiles back at me.

After yesterday’s Valentine’s Day, forget the gimmicks and commercial gestures, the rose bouquet and the ribbon-covered box. Find the people who make you feel the rhythm of your beating heart, and be to them as Love is and wants to be. Make their hearts beat right back to the tempo of something shared. For Love is the reason. And Love is the end."


Eu não poderia ter dito melhor. E sabe o meu caderninho que divago muito sobre o assunto...

MJNuts

Sunday, December 27, 2009

Maturidade?

Ontem depois do jantar, em família, e sabe-se lá porquê, veio à baila o tema da maturidade. Disse-se o já sabido que, socialmente, o atingir da maturidade chega aos 18, mas há crianças com 8 ou 9 anos que já têm mais maturidade que adultos muito para lá dos 18. Disse-se que não vale a pena procurar a maturidade, que a vida encarrega-se disso.

Disseram-me a mim que maturidade é um desejo de assentar, de querer estabilidade. É diferente de querer casar e ter filhos como o mainstream parece sonhar. Maturidade é assumir as responsabilidades. É parar e criar a nossa vida à nossa volta. Acabar um curso e arranjar um trabalho, mesmo que não se goste muito dele. É manter esse trabalho porque o dinheiro faz falta, mas usá-lo para alimentar outras paixões. Não se gosta de estar atrás da secretária, mas gosta-se de teatro e fotografia. Há tubos de escape. São tubos de escape para a maturidade?

Maturidade é ser casado e ter dois filhos e de repente acordar-se com vontade de não ter nada disso, mas ficar mesmo assim, porque é nossa responsabilidade para com os que amamos.

Foi o que eles disseram. Ainda estou para decidir se concordo ou discordo. Tenho noção de que não sou a mais madura das criaturas de 23 anos, mas independentemente do meu caso, se alguém tem 50 anos e é missionário e toda a vida viajou pelo mundo a ajudar os mais necessitados sem nunca parar, sem nunca comprar uma casa e fazer uma vida à sua volta, essa pessoa é imatura?

Até que ponto maturidade está associada ao conceito de assentar? E será "assentar" outra forma de dizer "parar"? Ou "assentar" vem sob diferentes formas? Se aquele missionário de 50 anos decidiu conscientemente passar assim a sua vida, se é isso que o faz feliz, não será possível que ele tenha assentado na sua mobilidade? Eu acho que é.

Também acho que maturidade é mais do que a idade, mas que com a idade vem muita coisa. Tenho a sorte de conhecer gente de muitas faixas etárias. Já vi putos de 16 anos estúpidos que nem uma porta e miúdos de 17 anos capazes de chegar muito mais além, de pensar racionalmente e de assumirem a responsabilidade dos seus actos e decisões. Mas a verdade é que, em certas coisas, em certos momentos, nota-se sempre que aquela pessoa tem 17 anos e não 25. Maturidade chegada cedo não nos torna mais sabedores sobre a vida, só nos torna mais... maduros.

Um puto de 18 anos é sempre um puto de 18 anos. Não interessa que tenha tido o pai em coma ou que a melhor amiga tenha cometido suicídio. Ficam dores e aprendizagens que se a Vida fossem rosas, nunca chegariam, mas há erros que ainda têm de ser cometidos. Há pequenos pedaços de ingenuidade que têm de desaparecer, porque a magia dificilmente dura para sempre e dá lugar ao cinismo e ao despeito.

Por isso, não, não sou a mais madura das pessoas da minha idade. Muitas já trabalham e já têm a sua vida delineada. Eu não tenho nada. Estou quase a acabar um curso que não quero exercer. Não quero encontrar um trabalho para me prender, mas também não quero fugir. Eu sei o que preciso e o que procuro.

Tenho uma inquietação em mim que há muito cá anda. Mas a Vida acontece e faz-nos crescer e crescer também é conhecermo-nos melhor. Eu, para já, não quero a vida normal, porque nela não encontro serenidade. É isso que eu procuro. Serenidade. Encontrei-a uma vez e deixei-a escapar, por isso agora carrego diariamente nos ombros o peso de a ter perdido. Mas tenho esperança que algures aí, à espreita, esteja algo ou alguém para me agarrar e me impedir de fugir e me mostrar que vale a pena ficar.

Até lá, vou dando passos leves aqui e ali, nunca estando realmente em lado nenhum. Até lá, sorrio e converso e rodeio-me de gente e às vezes atinjo uma quase-completude e outras vezes quase me entrego por inteiro. Mas a verdade é que ainda não estou inteira. E até estar, eu terei de bastar-me a mim mesma e encontrar força nos que me amam.

MJNuts

Sunday, April 6, 2008

Deus?

Tenho andado a sentir-me algo... espiritual. Bem, na verdade nem por isso. Apenas me têm ocorrido questões religiosas sobre as quais os meus Eus interiores gostam de divagar.

Dito isto, não faço a menor ideia de qual será o fio condutor deste post ou sequer se terá lógica no seu todo. Leiam a vosso risco que esta banca de Tretas bem precisa de material novo para não desiludir os seus... vá, seguidores.

Começando, e falando genericamente também, a maior parte das religiões, senão todas (e não estamos a debruçar-nos sobre as seitas derivadas de religiões ditas maiores), surgiram devido à necessidade humana de dar uma explicação minimamente lógica ao mundo que nos rodeia. É claro que se poderá dizer que o divino não tem qualquer tipo de lógica. De seres imortais e omnipotentes, passando por milagres e reencarnações... Não há nada de muito científico por estes lados. Mas afastando-nos desse preconceito... Um Deus a criar o Universo e descansar ao 7º Dia é uma explicação, ainda que duvidosa, de como surgiu o Cosmos. Não está muito longe do Big Bang, até!

Muitas religiões politeístas (e penso particularmente nas da Antiguidade) têm diversos mitos para explicar assuntos como a Morte ou o Amor. Atribuem importância às guerras ou à sabedoria. Através de histórias, contam como surgiram dados animais ou flores. Explicam porque há boas ou más colheitas, porque nem sempre as marés vão a favor dos marinheiros, para onde vão as almas depois da morte física.

Pessoalmente, sou pseudo-humanista. Acredito no Homem e no seu potencial. Custa-me crer que haja muito mais para além da Morte, embora - paradoxalmente ou não - não tenha medo de morrer. Confesso que não gosto da ideia de morrer e puff!, o meu corpo alimenta a terra e somos todos felizes assim, sem mais nada para experimentar. Mas, ao mesmo tempo, se no meu cérebro reside a minha consciência e a minha essência e se o cérebro está morto... Como é suposto eu saber o que há depois disso? Temas complexos, portanto.

Seja como for, o que mais me tem posto a pensar em religiões nos tempos que correm não é propriamente a Morte nem a necessidade de crer em algo, é apenas uma questão curiosa... Assim de repente, ocorrem-me pelo menos 3 religiões com distinção Paraíso/Inferno. Que seria o Catolicismo, e as politeístas Greco-Romana e Escandinava. Tenho a vaga ideia que esta distinção também está presente no Hinduísmo e, tendo em consideração os pilares judaicos no Antigo Testamento, subiríamos este número para 5. Não tenho sequer a pretensão de me considerar especialista em religiões. Não o sou. Sei muito pouco de Judaísmo, Islamismo, Protestantismo... Sei alguma coisa do Catolicismo (e não nego a minha educação católica, que embora arrastada para os confins do meu pseudo-humanismo/agnosticismo, foi de larga contribuição para a pessoa que sou hoje) e da belíssima Mitologia Greco-Romana. Mas estou longe de ser uma enciclopédia sobre o assunto.

Voltando ao que interessa... Dicotomia Paraíso/Inferno. Tenho pensado nisso, porque é curioso. É uma ideia simples, que resulta bem em mentalidades embrutecidas. Resulta bem numa criança, num ignorante, num alfabeto. Resulta bem, portanto, em quê? 80% da população mundial?

A base é do mais elementar que há: faz o Bem, vais para o Paraíso; pões-te com merdas, vais recambiad@ para os confins do Inferno.

Há consenso sobre o Paraíso. Bonitinho e tal. Verdejante. Animais fofinhos (ainda gostava saber que acontece à população lá do sítio se não há predadores naturais para a bicheza), música calminha, pessoas bonitas por ali... Pergunto-me para que são as pessoas bonitas... Quer dizer, se estamos no Paraíso, não podemos exactamente ter sexo com elas, não é? Mas já estou a fugir ao assunto.

O Inferno... O Inferno é assim muito variado! Se não estou errada, culturalmente, o Inferno dos Católicos é o Fogo Eterno. O pessoal porta-se mal, bate as botas e vai assar para a eternidade ao pé de serezinhos com cornos e uma cauda engraçada. É mau, é mau. Não gostava sequer de morrer queimada, quanto mais arder eternamente!

No Oriente, segundo ouvi da boca de geeks (logo, fonte duvidosa - ah! brincadeirinha, gente!), o Inferno está associado ao frio. Seria um Gelo Eterno em vez de Fogo. O que me parece igualmente mau. Não sou propriamente fã de ter frio, é desagradável.

O Inferno de Hades era engraçado, também. Lá o Rio, com as almas todas servindo de água, eternamente deambulando. Tendo em conta o circuito limitado, não me parece a melhor das perspectivas.

Não esquecer que, nessa obra que imagino belíssima e que algum dia hei-de ler - A Divina Comédia -, Dante descreveu não um, mas 9 (nove!) tipos diferentes de Inferno. Nove Círculos de Inferno, cada um pior que o anterior até se chegar ao 9º, no centro da Terra, onde reside Satã. Cada nível castigaria diferentes formas de pecado. Há para todos os gostos. De carregar pedras a fogueiras, a castigos eternos com diversos tipos de demónios. Há, até, níveis de Inferno com zonas e sub-zonas diferentes. É uma festa infernal!

Ora, mas porquê então? Tanto ênfase no castigo para os nossos erros e tão pouca dedicação para os nossos bons actos? Na minha lógica, quem andou fazendo o Bem por aí é que devia ter festa de arromba depois de morto! Mas não, o Paraíso é aborrecido e parado, parece que nada acontece por lá, além de muita paz e espírito calmo. O que também é bom... mas não para a eternidade! Ou sou eu que sou jovem e imberbe?

Pensando no caso, a verdade é até bastante simples... Não se aplica muito a mim, porque efectivamente não sou muito vingativa/rancorosa, mas é claro que se aplica a mim também.

Se reflectirmos honestamente, se tivermos coragem de olhar para dentro e nos admitirmos como somos - uns pobres corações insignificantes (não infelizes, hã?!) -, a verdade é bastante simples. O ser humano, com o muito de animal que ainda tem, é por natureza básico, instintivo, sobrevivente. Não interessa quantos computadores temos ou quão bem conduzimos ou as tecnologias que dominamos. Despidos disso, somos apenas seres vivos. E seres vivos aguentam-se para não morrerem tão depressa! Este aspecto... primário, digamos, da nossa natureza humana traz-nos muitas coisas: egoísmo, impulsividade, irreflexão... e fragilidade.

A verdade dura e simples, parece-me a mim, é que nos é muito mais natural o desejar que algo ou alguém castigue quem nos fez mal, mesmo que esse castigo só chegue após a Morte, do que o desejar a alguém que nos fez bem uma recompensa eterna. Porque ver alguém sair impune pelo mal que fez é muito mais doloroso, a injustiça parece corroer-nos o sangue. Quando alguém pratica bons actos... espera-se que seja gratificante a sensação que fica após os seus resultados. Espera-se que isso baste.

É claro que muitos velhotes andam por aí agradecendo ao dizer "Deus te pague" ou coisas do género... Mas a perspectiva infernal dos desejos humanos é em muito maior escala. Digo eu. Até na nossa apreciação do karma, a coisa flui neste sentido. Fazemos boas coisas para boas coisas nos acontecerem a nós, mas desejamos que o mal que os outros fazem lhes seja dirigido de igual forma. Se formos nós a fazer o mal... Ah, esquece lá o karma.

É engraçado. Ainda tenho de fazer um estudo sociológico sobre isto.

E Deus, onde está? Qualquer que seja o nome que se lhe dá? Seja quem for, tem com certeza um genial sentido de humor...

... E é o maior voyeur da História.

MJNuts

Edit: substituído Cristianismo por Catolicismo nos sítios onde era devido. Obrigada pela dica, Aurora.

Saturday, March 15, 2008

Quartos de Hotel

"É possível morrer. Laura pensa, de súbito, como ela - como qualquer pessoa - pode fazer uma escolha dessas. É um pensamento impulsivo, vertiginoso, um pouco imaterial - anuncia-se dentro da sua cabeça, leve mas distintamente, como uma voz crepitante de uma longínqua estação de rádio. Ela podia decidir morrer. É uma tremeluzente ideia abstracta, não particularmente mórbida. É em quartos de hotel que as pessoas fazem coisas dessas, não é? É possível - talvez até provável - que alguém tenha posto fim à vida aqui, neste quarto, nesta cama. Alguém disse «Basta, não quero mais»; alguém olhou pela última vez para estas paredes brancas, este liso tecto branco. Ao ir para um hotel, ela percebe-o, deixamos para trás as particularidades da nossa própria vida e entramos numa zona neutra, num limpo quarto branco, onde morrer não parece uma coisa assim tão estranha.
Podia, pensa, ser profundamente reconfortante, podia dar uma sensação de tanta liberdade: partir, simplesmente. Dizer a todos: eu não podia suportar, não fazem a mínima ideia; não queria tentar mais. Podia, pensa, haver uma terrível beleza nisso, como um campo de gelo ou um deserto ao despontar da manhã.
(...)
Passa a mão pelo ventre. Nunca o faria. Diz as palavras em voz alta, no quarto limpo e silencioso: «Nunca o faria.»
(...)
No entanto, está satisfeita por saber (pois, de algum modo, subitamente, sabe) que é possível parar de viver. Existe conforto em encarar toda a gama de opções, em considerar sem medo e sem astúcia todas as escolhas possíveis. Imagina Virginia Woolf, virginal, desiquilibrada, vencida pelas impossíveis exigências da vida e dar arte; imagina-a a entrar num rio com uma pedra na algibeira. Laura continua a passar a mão pelo ventre. Seria tão simples, pensa, como alugar um quarto num hotel. Sim, seria tão simples como isso."

Michael Cunningham em "As Horas"

Guess

Sunday, March 2, 2008

Sexo, Sexo Fálico, Sexo sem Falo e o Que Freud Fez de Todos

Ora portanto... De sexo todos falam e tenho vindo a notar um facto curioso sobre esta matéria em todas as pessoas com quem falo, independentemente das suas orientações sexuais. Preparem-se para um post com palavras que fazem os adolescentes darem risinhos idiotas. E se o meu discurso às vezes soar badalhoco, peço desculpa. Ao contrário do que possa parecer, estou a tentar abordar o assunto com seriedade. Ah, e aviso desde já os seres potencialmente menos dotados a nível de vocabulário que falo é pénis.

Para uma grande percentagem das pessoas, homens ou mulheres, o conceito de sexo sem a existência de um pénis é estranho, improvável ou simplesmente muitas vezes nem é tomado como sexo.

Há uma grande "guerra" entre as diferentes orientações sexuais, o que suponho que seja normal. É mais difícil compreender o que não se conhece. Então temos homens heterossexuais a não perceberem os homens gays, homens gays a não compreenderem as lésbicas e a desejarem os homens hetero, mulheres hetero a não perceberem como é que as lésbicas se orientam, mulheres lésbicas a tentarem perceber se fazem sexo ou não. E depois, claro, temos os bissexuais muito felizes que percebem o lado de toda a gente. Convém de facto ser bissexual e não fingir apenas por questões sociais, porque senão a compreensão fica à porta de qualquer das formas.

Ouvindo as conversas e pesquisando um pouco sobre o assunto, facilmente se descobre que todo o conceito de sexualidade está amplamente baseado no pénis. Há até autores que defendem que o orgasmo feminino não é uma necessidade biológica, pois é independente da reprodução, ao contrário do orgasmo masculino - quase sempre associado à ejaculação. Isso faz do orgasmo feminino um evento quase mítico e dificilmente explicável. É suposto nós, mulheres, não termos prazer? Por outro lado, as contracções das paredes uterinas durante o orgasmo talvez até dêem alguma luz aos espermatozóidezinhos à procura de vingar, mas desconheço se isso já foi provado ou se estou a divagar.

Não sei onde isto começou, mas a verdade é que até o conceito de virgindade está vinculado ao pénis: popularmente, uma mulher deixa de ser virgem quando há penetração vaginal por um pénis; um homem perde a virgindade quando penetra pela primeira vez. Segundo este raciocínio, um homem gay perde a virgindade também, pode é penetrar outros orifícios. Então e as lésbicas hardcore que morrem aos 80 e só tiveram relações com mulheres? Morrem virgens?

Segundo a Igreja Católica, a virgindade não passa tanto pela penetração. Ou antes, passa obviamente pela penetração, mas é um conceito exclusivo da heterossexualidade. A Igreja assume uma postura em que o sexo tem fins apenas reprodutivos (daí a posição contra métodos anti-concepcionais), logo a virgindade só se perde numa relação homem/mulher com esse propósito. Sexo por prazer não é tomado em consideração. Um homem gay, apesar de penetrar, é pecador E virgem aos olhos da Igreja. E as lésbicas voltam a morrer virgens.

Em termos de relação sexual propriamente dita, não é preciso ser muito inteligente para perceber o que fazem os casais, sejam hetero ou gays. Entre penetração, masturbação, sexo oral e trocas de posições, toda a gente se diverte. Parece-me óbvio também que eu, como mulher, nunca poderei saber o prazer que invade um homem no seu pénis (embora o possa imaginar), da mesma forma que um homem nunca poderá saber o que eu sinto na vagina. As mulheres não têm pénis, os homens não têm vagina, torna-se complicado perceber a diferença do prazer de um ou outro.

Então porque é que apesar disto, de todos fazerem as mesmas coisas (usando diferentes métodos, técnicas, órgãos ou orifícios), porque é que ainda assim há o preconceito de sexo sem pénis não ser sexo? Ou ser uma espécie de inferior sex? O propósito básico de uma relação sexual, pondo de lado a questão reprodutiva, não é atingir o orgasmo e dar prazer ao parceiro de modo a que ele atinja também o orgasmo?

A origem deste preconceito pode não ser freudiana, mas sem dúvida que Freud a expressou claramente. Para o pai da Psicanálise, a sexualidade é falo-cêntrica e, segundo ele, o Inconsciente deseja sempre o pénis. Assim sendo, os homens temem a castração (o que no Complexo de Édipo se vai reflectir no ressentimento para com a figura do pai) e as mulheres desejam ter pénis (o que no Complexo de Elektra se vai reflectir no desejo pelo pai). Portanto, mais uma teoria que deixa mal as lésbicas e, mais do que as lésbicas, torna as mulheres umas eternas desesperadas na busca do pénis que só poderão obter como seu se fizerem uma operação de mudança de sexo.


Acho que tudo isto ainda vem confirmar as estatísticas de que há mais homens gays do que mulheres lésbicas e de que há mais transsexuais (este ainda é o termo correcto e não ofensivo?) homens a quererem ser mulheres. Terminando tudo no desejo pelo pénis, certo? Ou seja, estatisticamente, o desejo por vaginas também há-de ser inferior em número.

Não sei que pense de tudo isto. Não acho que um casal heterossexual faça mais ou menos do que um casal homossexual. Acho que tem essa grande vantagem que é a de, a dado momento da relação sexual, o pénis estar em contacto directo com a vagina - mais concretamente encaixados - e ambos os parceiros podem retirar imenso prazer disso. Numa relação homossexual, não creio que as pessoas fiquem próximas de orgasmos por andarem os pénis ou as vaginas a baterem uns nos outros... Bem, mas há malucos para tudo. E há estratégias para dar a volta por cima de tudo, por isso tenho a certeza que, com ou sem pénis, quem não é virgem nem assexual está a divertir-se a ter sexo.

Só gostava era de perceber porque é que uma orientação sexual tem de perguntar a outra, como se fosse a coisa mais esquizofrénica de sempre: "mas afinal o que é que vocês fazem?". Hum... Parece que a minha mente é mais perversa que a do humano médio e consigo dar resposta a essa pergunta em várias vertentes...

MJNuts

Wednesday, February 13, 2008

Caracterizando-te...

Penso que o teu "Caracterizem-me!" é o terceiro post neste estaminé, entre eu e tu, em que se devaneia sobre o sentido da vida, num eterno paralelo entre o que nos parece melhor, mais interessante, mais real e o percurso que é normalmente definido como o padrão da sociedade.

Tudo na vida é uma questão de perspectiva. O denominado "padrão da sociedade" é padrão, porque, efectivamente, uma larga maioria de pessoas sonha ter uma carreira ou uma família. Afinal de contas, temos que nos sustentar, porque para o bem ou para o mal, sem dinheiro pouco ou nada há. A não ser que se viva como eremita, confiando apenas na Natureza.

Não é que essas pessoas estejam erradas. Com certeza deve haver um imenso fascínio na criação de uma família. Construir uma relação, um lar, ver os filhos crescerem, assistir ao Ciclo da Vida versão seres humanos. Também acho bastante interessante ver alguém dedicar-se de corpo e alma a uma profissão. Sei lá, ser médico, salvar vidas. Construir uma empresa e coleccionar dinheiro. Ser professor a vida toda e inspirar miúdos.

São opções. Que, talvez felizmente, servem à maioria das pessoas.

Essas personalidades de que falas são... magnéticas, por um motivo ou por outro. Mas não esqueças que muita vezes coragem se mistura com loucura e irresponsabilidade.

O Alexander Supertramp, do Into the Wild que também muito me tocou (embora creio que por motivos diferentes...), era um revoltado. Cresceu produto dos pais que tinha e das mentiras por eles criadas. Refugiou-se nos livros e deles retirou um sentido de rectidão rígido que o fez procurar a verdade, não nas relações humanas, mas no mundo selvagem. O Alexander Supertramp passou anos de um lado para o outro no país enorme que são os Estados Unidos da América, conheceu pessoas e esteve sozinho, correu perigos e enfrentou ameaças, apenas para no fim concluir com a sua experiência que a felicidade só é real quando partilhada, que o perdão que não dava aos seus pais o tornava também a ele vítima das mentiras que condenava, que as coisas devem ser chamadas pelos nomes e que ele era Christopher McCandless, não Alexander Supertramp. O Alex foi um alter-ego, que era ele também, mas era um ele que fugia.

O Toby do Transamerica partiu sem qualquer rumo e objectivo e teve sorte, podia ter-se habilitado a sofrer muitos revezes. É, de todos os que mencionaste, o pior exemplo a seguir. Entre prostituto e estrela porno, deu para ver que acima de tudo, ele era apenas um miúdo perdido, desesperadamente à procura do sentido de pertença.

O Patrick Braden, por fim A Kitten, do Breakfast on Pluto era uma sonhadora. Quase utópica, o que a tornava uma delícia de pessoa. Percorreu mundos pavorosos, de uma certa quantidade de degredo humano, mas manteve um encanto de petiz. Vivia no seu mundo pessoal, que a protegia dos males de fora. Nasceu no corpo errado e lutou pela sua identidade como ser feminino, independentemente da identidade conferida pela sua anatomia. Não foi nem nunca é um caminho fácil.

O Edward Bloom, do Big Fish, é apenas um excêntrico. É um homem com um optimismo fora do comum, optimismo que o fazia ser completamente cego às contrariedades da vida. Com o seu pensamento positivo, lá foi andando, de história em história. Ainda assim, só conseguiu chegar ao coração do filho depois de morrer...

Não nasci para seguir o "padrão da sociedade" e é óbvio que tu também não. Há alturas em que é preciso tomar decisões e nessas alturas sentimo-nos frágeis e desejávamos ser como os comuns mortais, porque assim seria mais fácil. São essas as fases que nos fazem divagar contra o sistema e a sociedade e o vulgar. Como eu disse uma vez, não sei se a ti, "não há nada de especial nas pessoas normais".

Não tens que sentir inveja dos outros por terem uma vida melhor ou serem mais bonitos ou terem o caminho facilitado. Tens de olhar para dentro e sentir orgulho na tua diferença. Agarrares-te a ela e fazeres dela a tua força, não a tua fraqueza.

A verdade é que as pessoas, seja na "normalidade" seja no impensável, só fazem as coisas quando têm uma motivação. O Alex, a Kitten e o Edward tinham-na. O Toby não. O Toby seguia a corrente e deixou-se arrastar por ela.

A dificuldade não está em ser diferente do "padrão". Isso é fácil. A dificuldade está em ser diferente do "padrão" e conseguir encontrar algo que nos impele a continuar. Encontrar algo que nos faça lutar e seguir em frente. Pode não ser uma carreira, pode não ser uma família. Pode ser o mato, a música, os sem-abrigo, o sexo, os esgotos, o mar, o desporto, o espaço, as estrelas! Pode ser uma infinidade de coisas, mas só cada um de nós sabe o que essa coisa é, para si.

Quando não se sabe o que se quer, leva-se uma vida que é, de certa forma, uma existência. Há diversão e emoção e tristeza e relações humanas, mas não há a chama. Não há luta, não há algo a que nos agarrarmos pela nossa sanidade. E a verdade é que é sem dúvida mais fácil e menos trabalhoso... existir. Por isso, vê-se muitas pessoas infelizes e frustradas e sem rumo. Fugiram de si mesmas em prol de um qualquer... padrão social? facilidade pessoal? Não sei. Mas vejo-as por aí.

Não lamentes a coragem que não tens de ser um Alexander Supertramp. Lamenta a coragem que ainda não tens para dar voz a quem realmente és. Mas lá chegarás.

I am here for you.


MJNuts

Caracterizem-me!

Sem saber como começar este post, Into The Wild é um filme que provocou em mim uma reacção silenciosa e um pouco traumática após o aparecimento dos créditos finais. As luzes mantiveram-se desligadas até ao final dos créditos (viva o Monumental Saldanha) e desde a saída do cinema até chegar a casa, o filme ficou a palpitar e a remoer-se na minha mente.

Cheguei a casa ainda a imaginar aquele personagem que é Alexander Supertramp e tive necessidade de partilhar a minha visão relativamente ao filme com os meus pais (vá-se lá saber porquê, eles é que me abriram a porta). À medida que relatava a sinopse, a minha mãe abanava a cabeça, renegando os ideias e o meu pai contava o número de vezes que utilizava a expressão "tipo".

Não tardou muito para que a conversa tomasse um rumo atacante e favorável ao lado dos meus pais. Falou-se do tempo em demasia passado fora de casa por minha parte, falou-se da falta de estudo, falou-se da preocupação que tinham sobre o meu futuro académico, falou-se inclusivé do estado inerte - para eles, pelo menos - da minha vida actualmente.

O mood que tinha trazido comigo da sala de cinema começava a desvanecer-se para dar lugar às preocupações, aos receios e à porcaria das ansiedades que todos nós temos presos connosco em todos os momentos da nossa vida.

Agora, aqui estou eu, perguntando-me porque não podemos ter nós uma vida como aquela, tão deliciosamente aprazível, mas também terrivelmente perigosa, como a que nos é apresentada no grande ecrã da sala escura? Porque temos nós que fazer o que todo o indivíduo faz? Tirar um curso superior, arranjar alguém, assentar, comprar, viver, conduzir, cozinhar, ver televisão, fazer horários, correr para um sítio, voltar para outro, pagar a casa, vender a casa, comprar um carro melhor, não sei... Sei que tudo isto é relativo, mas porque não tenho eu a coragem de abdicar de tudo isto e arriscar? Fazer aquilo que todos falam, que todos sonham, que todos lêem, que todos vêem e, por vezes, nomeiam para Óscares?

Creio que nunca tinha explorado ou aprofundado este lado do meu ser, mas ele está desperto neste momento. Tem vindo a despertar há já alguns dias. Senti-me preso quando saí do cinema e tive que esperar que o sinal ficasse verde para os peões para poder atravessar com segurança. Que segurança?

Tomara eu ter a destreza e a força para sair daqui. Para ir onde quer que fosse. Para ir para qualquer lado menos aqui. Para não fazer aquilo que devo fazer; que todos devem fazer; que todos fazem. Ser como...

Alexander Supertramp (Into The Wild)

- fugir após terminar a faculdade e aventurar-se no tão cativante mas perigoso mundo sem qualquer poder de sobrevivência a não ser ele próprio e a natureza.

Toby (Transamerica)
- a sua liberdade espiritual e indiferença perante a sociedade levam-no a embarcar numa viagem pela América com uma senhora que nem sequer conhece.

Patrick 'Kitten' Braden (Breakfast on Pluto)
- a sua vontade de viver, de procurar a sua verdadeira mãe e de fugir da sociedade em que vivia onde todos o conheciam e não o respeitavam, provocam o desencadeamento de uma etapa da sua vida memorável repleta de novas caras e experiências.

Edward Bloom (Big Fish)
- a sua convicção de que estava destinado a grandes feitos e a espaços diferentes daqueles em que estava habituado viver, possibilitaram as histórias mais maravilhosas e incríveis para contar ao seu filho.

Estes foram apenas alguns exemplos de personagens-modelo que me palpitaram a mente de momento. Gostariam de ser algum deles? Talvez não. Talvez estejam mais ocupados a estudar para o vosso curso ou a poupar para o vosso próximo investimento. Eu farei o mesmo.

Guess