Monday, June 21, 2010
Maximilien Aue
Às seis da manhã de domingo passado, regressava eu para casa no 28 Portela, depois da noite dos Santos Populares. O autocarro ia cheio porque toda a gente estava a regressar a casa.
Eu estava perto do motorista e no meio do autocarro, junto às portas, estava um tipo: o maior idiota à face da terra. Era mesmo um loser daqueles inconfundíveis.
Era alto, tinha a barba por fazer e falava alto propositadamente. Era o rei lá do sítio e mandava piadas em voz alta e ria-se para que todos o ouvissem.
Chegou até a implicar com um pobre de um bêbedo, que devia estar no lugar errado à hora errada, e foi um estronço de primeira. Ainda lhe espetou umas chapadas e esmurrou a cabeça do coitado contra o vidro do autocarro.
Tinha uns 25 anos e era um autêntico anormal. Toda a gente no autocarro estava incomodada com a presença dele.
Depois disto, ainda se começou a fazer a uma moça que por lá estava sentada. O pior engatatão de sempre. Com aquela postura de homem estúpido que quer claramente levar a rapariga para a cama e que sorri estupidamente e se arma em bom.
Ela ria-se e achava-lhe piada ou tinha pena (não consegui perceber). Chegou a paragem dela e ele pediu-lhe para não partir assim muito histericamente.
Ela foi-se embora, ele continou a ser o estrume do autocarro. Saiu antes de mim.
Quando cheguei a casa, quase às sete da manhã, masturbei-me a pensar nele antes de adormecer.
Imaginei que era a rapariga com quem ele tinha falado. Quando chegava a minha paragem eu dizia-lhe para sair comigo.
Convidava-o a subir e fodíamos que nem cavalos.
Quando tivéssemos terminado, pedia-lhe muito friamente para se ir embora. Dizia-lhe que o achava o maior anormal à face da terra e que tinha pena dele mas mais pena de mim por me sentir sempre atraída pelas pessoas mais losers e nojentas que existem no mundo.
Guess
Monday, May 31, 2010
Lxnet e o Mundo
Este é o Bruno:
O Bruno não faz falta aos Ídolos e, como tal, o que ele decide fazer é pegar numa câmara, pintar o cabelo de cor-de-rosa - o cor-de-rosa mais berrante que os meus olhos já viram -, e ir para as ruas de Lisboa filmar a cidade como ele a vê.
Dito deste modo, até a mim me parece ser uma atitude bastante natural. O que não falta ao YouTube são vídeos inúteis e desnecessários sobre o irrelevante e o pouco importante que há neste mundo. A partir daí, o Bruno é bem-vindo a partilhar, virtualmente, todos os seus caprichos da imaginação, todos as suas fantasias, sonhos e quimeras.
Mas há devaneios que dão que falar mais que outros. Este é o Bruno e o seu programa, Lxnet:
...
Foi-me mostrado este vídeo ainda hoje e a pessoa que o fez avisou-me previamente que a personagem que me iria apresentar envergonhava toda a comunidade gay e que só tinha vontade de o esmurrar. À medida que o vídeo decorria e o víamos naquela sala minúscula, alguns riam, outros abanavam a cabeça incrédulos, outros ficavam irritados e uns diziam ainda estar a ficar mal-dispostos.
Este é o Bruno, que não se vê todos os dias, mas que podemos encontrar nos comboios da linha de Cascais, na Baixa-Chiado, no Starbucks ou, claro, no Trumps. São imensos os vídeos que podem ver no YouTube e que fazem parte deste programa, denominado por Lxnet. O que podem encontrar, também, juntamente com estes vídeos, são as famosas partilhas de opinião:
«morre paneleiro do crl»
«n dizes pão! Pede para cagar e sai.»
«és o quê? lisu ou... liso again... fonix deves ter um gosto de existir.»
«que nojo ...»
«falece»
«então e que tal calares essa boca de merda e utilizares aquilo que a tua mãe te deve ter dado, chamado cérebro. Hein?»
«lol, ele ta a gozar, deve ser uma cena a gozar com os Americanos ou assim...»
«oh meu idiota, primeiro eu gozei com ele. Portanto wtf para levares tão a peito uma piada sobre um puto gay, ofendi-te foi? e segundo, achas mesmo que aquilo vai continuar assim para sempre? quando tiver 30 já tá noutra onda... portanto, fuck off!»
Este é o Bruno e as suas frases características, que vai repetindo ao longo de todos os seus vídeos:
«hi bitch! migo tens de pintar essas raízes. take care.»
Eu, por vezes, rio-me. Rio-me especialmente no minuto 2.34, quando ele emite uns sons estranhos e faz uma expressão hilariante para o seu lado esquerdo. Por vezes, também me faz confusão. Choca com aquilo que eu acho que deveria ser. Mas quem sou eu? Com certezas vos digo que não conseguiria conviver com este ser e a pessoa que ele mostra nestes vídeos não é a mais interessante. Mas é chocante. Não interessa se o é no bom ou no mau sentido. Estes testemunhos nas ruas de Lisboa são chocantes.
Parece-me um pouco demais os comentários que possamos fazer, que definem isto como lixo e como parte do mundo que não deveria existir. No entanto, no meu meio social, admito que palavras semelhantes me pudessem sair da boca.
Mas, depois, lembro-me: whatever makes you happy.
Sim, é assustador e, sim, à primeira vista, parece manchar a ideia do que é um homossexual, mas, a verdade, é que também existem heterossexuais idiotas, se assim quiseremos definir o Bruno. A questão não é tratar-se de um paneleiro que não deveria existir, mas, sim, de um idiota que não deveria existir (usando palavras que não me pertencem). Não quero, de modo algum, entrar na discussão, já cansativa, das sexualidades e da discriminação, mas, digam-me: o que acham vocês do Bruno? Eu ando a aprender a ser mais tolerante.
Deixo-vos com mais um vídeo do Bruno. Aquela conversa sem teor que não se percebe de onde vem. Que vidas. Mas, bem, sem mais demoras, Lxnet - Bichas na baixa!!
Guess
Friday, May 28, 2010
Post de Resposta a «You Suck, Lost Ending!»
Guess
Thursday, May 20, 2010
Dia de Bicicleta
Sem planos, desci até ao -1, peguei na bicicleta e entreguei-me àquele dia quente, promissor de um Verão ainda mais calorento. Acho que, de uma maneira muito pouco saudável, sempre evitei, durante toda a minha vida, andar por aí sozinho. Não consigo explicá-lo, mas a ideia de ser um andarilho solitário sempre me atacou de forma negativa. Mas, agora, já não. Lisboa parece fazer os solitários ganhar uma beleza mais simples, mais limpa e hipnótica. Muito mais que isso, as ruas de Lisboa parecem ter ganho um outro encanto que só encontro quando estou sozinho. Crescer trouxe-me este pequeno prazer. Ao menos isso porque, nestes últimos meses, em que cresci mais rápido do que em qualquer outra altura da minha vida, o que esta me trouxe nem sempre foi bonito. Mas este gosto por uma cidade que pode pertencer a uma pessoa só, guardo com um carinho que só um adulto pode ter.
Para sair do Parque das Nações, subi pela Baptista Russo, cortei para o prolongamento dos Estados Unidos da América, entrei para Chelas, desci e atravessei a ponte que nos leva às Olaias, subi até à Alameda e, então, tu ligaste-me. Ainda bem que o fizeste porque, mesmo que inconscientemente, acho que me dirigia para tua casa. Gosto do que sinto quando Lisboa me trata como uma pessoa só, mas a ideia de parar em tua casa, subir até ao quarto e acordar-te com, talvez, um beijo faz-me sentir ainda melhor. Adoro o teu quarto pela manhã. Mas tu não estás em casa. Tens aulas e eu sinto-me um tolo por ter acreditado que, deitado na tua cama, ainda sonhavas com monstros e outras criaturas. Combinamos almoçar, mas ainda faltam algumas horas para isso.
Só quando desligas é que dou conta do lugar onde parei. Lisboa volta a tratar-me como um jovem (ou um adulto) que, sozinho, percorre a cidade numa bicicleta. Nunca tinha estado ali e, inevitavelmente, rendo-me aos encantos de uma terra que, de forma incansável, esconde lugares que a minha vida inteira não trará tempo para descobrir. No cimo da Alameda há um pequeno largo que tem esta vista primorosa para uma parte da cidade.

Alguns velhos estão por ali sentados e, mesmo eles, contêm aquela beleza triste e simples, coberta pelo manto fresco da sombra das árvores. Sento-me por um bocadinho e como uma ou duas batatas do pacote de Lays que trago na mochila. Sinto-me tão confortável com a t-shirt branca, os calções de ganga, as havaianas e de mochila às costas. Nela trago, apenas, uma camisola, a Educação Sentimental do Flaubert e as batatas.
Quinze minutos depois, torno a pegar na biciletra e desço a grande velocidade a pequena colina da Alameda, alcançando a Almirante Reis. Ora ando na estrada, tornando-me parte da confusão do tráfego, ora torno-me um modesto cidadão, com uma bicicleta, que atravessa as estradas pela passadeira. É como me convém porque, para mim, o dia de hoje não tem regras. Não existem sinais vermelhos, sentidos obrigatórios, passeios ou estradas reservadas para o bus, nem mesmo contra-mãos. Hoje, o Sol, o vento e a cidade fazem de mim uma pessoa livre.
Subo na direcção do Saldanha e continuo a pedalar a caminho de Entrecampos. Encontro-te junto à Estação de Comboios e faço-te companhia até à tua faculdade, onde irás ter aulas. Gosto de pedalar devagarinho ao teu lado. Gosto de conversar contigo, ao mesmo tempo que me tento equilibrar por me fazeres andar tão devagar. Tenho a certeza que não conseguirias andar a esta velocidade sem cair. Adoro o teu jeito trapalhão quando andas de bicicleta – é tão teu. Despeço-me de ti porque vou almoçar com ele e continuo a minha viagem ao longo da Avenida de Berna.
Encontro a Praça de Espanha e subo por aquele viaduto abrasador, descendo, depois, em direcção ao Campo Grande. Finalmente, alcanço a Cidade Universitária e tu já me ligaste a avisar que terminaste as aulas. Rapidamente, chego à porta da tua faculdade, mas ainda não há sinal de ti. Gostava que me visses chegar de bicicleta. Não sei porquê, gostava. Assim sendo e, convencido de que aquela é a melhor opção, não páro de pedalar. Passo a tua faculdade, dou a volta uns metros mais abaixo e torno a subir, passando novamente à frente do edifício. Chegando uns metros mais acima, torno a dar a volta e desço. Ainda não saíste. Porque demoras tanto tempo? Convenço-me de que aquilo que estou a fazer é em nome do não estar parado, mas, a verdade, é que não sei ao certo porque continuo a pedalar. Subo e desço aquele largo mais algumas vezes até apareceres à porta para me veres chegar. Prendemos a bicicleta num lugar próprio para ela, apesar de não sabermos muito bem como funciona.
Pela primeira vez em muito tempo, acerto naquilo que quero comer. Uma baguete de queijo fresco, uma coca-cola de lata e um pastel de nata. Mas isso não importa, porque o lilás que preenche suavemente a pele em torno dos teus olhos está particularmente bonito naquele almoço. Sei que tens andado um pouco doente estes últimos dias, mas continuo a gostar da tua cor. Muda todos os dias. Há sempre um tom diferente no teu rosto para eu descobrir.
Depois do almoço, mostras-me um lugar onde nunca estive. O Horto do Campo Grande. Um lugar abafado, escondido do mundo, apenas encontrado por aqueles que já o conhecem. Ah, Lisboa... por onde tenho eu andado? Ali, encontra-se uma grande variedade de plantas, árvores, flores e outros artigos para venda. Caminhamos os dois à procura de algo que não conhecemos e perdemo-nos naqueles corredores estreitos, delimitados pelas plantas, pelos quais não queres passar. Consigo convencer-te a atravessá-los e conduzo-te a lugares mais abafados, na ânsia de encontrar o que procuramos. No entanto, és tu quem descobre a passagem para o jardim onde se encontram os dois amantes: duas estátuas de plástico, velhas e já roídas pelo tempo, que representam um velho agricultor e a sua fiel companheira, de pá na mão e um chapéu de palha para proteger a cabeça do Sol. São quase da nossa altura e tu logo começas a fantasiar com o despertar nocturno daqueles dois bonecos para fins horroríficos. É uma perspectiva com algum potencial, mas, quando voltamos a passar por eles, depois de termos percorrido o jardim, já estás rendido à ideia de que aquele não é mais do que um amor intemporal, mais belo que as roseiras que os afagam.

Tens que voltar para as aulas e eu prometo ir buscar-te mais tarde, quando a minha bicicleta estiver já em repouso. Abraçamo-nos num contraste entre o branco que visto e o preto que há em ti e a bicicleta torna a entregar-me a Lisboa. Desço a Cidade Universitária até à Avenida do Brasil e subo aquela grande rua, passando por Alvalade e pela casa dos loucos. Descubro que, agora, ligando a Cidade Universitária e a Rotunda do Relógio, há um corredor vermelho, desenhado no chão, destinado apenas às bicicletas. Não que sirva de muito, pois, com todas as colinas que Lisboa tem, poucos portugueses se aventuram para além dos arredores das suas casa. A mim, dá-me um prazer enorme percorrer a cidade. Ver os loucos de Lisboa. Os pobres que abandonam o seu posto de trabalho para virem à rua fumar um cigarro. As senhoras de pernas pesadas que carregam as compras à procura de uma casa, agora, mais distante. Os mendigos que não conseguem fugir ao Sol. As crianças que faltaram às aulas. Os homens de fato e gravata que procuram o carro que foi rebocado. Os homens das obras que não cessam o trabalho para almoçar... Acreditem em mim: tudo isto vive dentro de uma moldura que não existe quando andamos de transportes públicos ou de carro.
Acho que a bicicleta é o meu meio de transporte favorito. Traz com ela uma liberdade feita do Sol quente das subidas, da brisa fresca das descidas e consegue fazer-nos chegar a todos os lugares da cidade sem que seja necessário um meio de distracção para o durante. A própria viagem é a melhor distracção que se pode ter. Lisboa não é cidade para bicicletas, eu sei, mas quero que o seja para mim. Vou fazer com que o seja.
Estou de volta ao Parque das Nações e, como combinado, dirijo-me para tua casa. Já terminaste as aulas e, desta vez, não é na Estação de Comboios que te encontro. Curiosamente, chegamos ao mesmo tempo. Mas, a verdade, é que não há nada de estranho neste incidente. A paixão que o destino tem por aquilo que eu e tu somos já nós conhecemos. Subo para o teu apartamento e deixo o meu tapete voador à porta. Mas quem vai voar és tu. Estás novamente de partida para terras londrinas e, a mim, parece-me que o que um amigo faz é passar com o seu compicha os minutos antecedentes à descolagem.
O teu cabelo continua bonito e a tua casa está inundada por um silêncio digno da nossa chegada. Tens que tratar de algo no teu computador e eu escolho deitar-me no sofá, atrás de ti. Sempre me surpreendeu a forma como pareces ter, constantemente, todos os livros que escolho ler, mas, depois, no teu escritório, não parecerem haver tantos livros quanto isso. Redescobrimos a Love Shack dos B52’s e ouvimo-la de forma repetitiva e incansável, enquanto fazes as malas à tua bela maneira desajeitada. Pões isto, pões aquilo, levas isto e, talvez, aquilo também. Livras-te de um e optas por outro, não sabes se levas aquele e, às tantas, já nem queres saber. As malas que voam contigo, nas viagens que fazes, levam, também, uma parte daquela tua criança pouco responsável e pouco preocupada. Sinto falta dela quando vais embora.
Quando tudo está pronto, temos que partir. Queixo-me ternurentemente por ter que abandonar o conforto da nossa harmonia caseira, plena e perfeita, para ter que te conduzir ao Aeroporto. Demoro mais tempo que o normal a encontrar o sítio ideal para guardar a bicicleta no teu apartamento. Não a quero entregar ao abandono triste e pouco seguro dos elevadores, mas, a verdade, é que a casa não é sítio para ela. Não foi feita para telhados, a pobre pequena, e logo mostra o seu descontentamento ao fazer de propósito para não caber nos corredores ou para não se aguentar em pé. Não tem escolha.
Deixas-me ir ao volante, apesar de se tratar do teu carro. Vou trazê-lo de volta para trás e, por isso, faz sentido que seja eu a conduzir. Para além disto, desta forma reina a ideia de que sou eu quem te está a entregar à partida. Como um pai que leva a filha para o ponto de encontro de onde vai partir a Visita de Estudo. Na aparelhagem, toca a banda sonora do This Is England. As músicas mexidas dos anos oitenta trazem-nos os sabores da noite de sábado, ainda não digeridos por inteiro. É verdade, demoramos tempo a digerir os nossos feitos, as nossas histórias. No entanto, ter ainda o McBacon no estômago não significa que seja errado comer já o Super Sundae de Caramelo Com Cobertura Extra e Bolacha Crocante. Queremos sempre mais.
Começa a faixa cinco do CD. Uma música triste e bonita, mas pouco apropriada para a nossa alegria inocente da altura. Apresso-me a mudar para a faixa seguinte, apesar de, a mim, não me fazer grande diferença. Mudei a música por causa de ti. Acho que, nesta fase da tua vida, não gostas de músicas tristes. Quando chegamos ao aeroporto, páro o carro em quatro piscas junto ao passeio onde os viajantes são deixados por aqueles que pouco dinheiro têm para o parque de estacionamento. Chegou a altura de dizer adeus, pensamos os dois em simultâneo. Lá vem o abraço esperado. Mas, desta vez, o nosso abraço tão famoso e perfeito sofre uma pequena falta de jeito e levamos mais alguns segundos até o conseguir dar. Rimo-nos porque, no fundo, aquele atrapalhamento é um jeito tão natural e tão nosso, que faz com que aquele momento pareça fazer sentido apenas com este. Abraçamo-nos com mais força do que a que costumamos fazer e sinto uma súbita vontade de chorar. Tenho andado frágil, tenho passado uns dias complicados e espero que me perdoes se começar a chorar sobre o teu cabelo de Bela. Isso não acontence porque, inevitavelmente, o abraço chega ao fim e cada um segue o seu caminho.

No percurso de regresso a tua casa, ponho a tocar a faixa cinco do CD e entrego-me à tristeza da tua partida. Podem não concordar comigo, porque sei que não concordam, mas eu defendo que as músicas que ouvimos devem estar em sintonia com o nosso estado de espírito. A tristeza pede uma música triste e a alegria uma música alegre. Não concordo com a terapia da música alegre como uma possível cura à tristeza.
Estaciono o carro na garagem, vou buscar a minha bicicleta e, de volta à rua, volto a pertencer a Lisboa. Pedalo devagarinho em direcção a casa, agora perto, com a ideia em mente de estar a fazer a última viagem do dia. Ainda não tinha chegado a casa quando me ligas a convidar para irmos andar de bicicleta. Eu já cá ando. Junta-te a mim. Chegaste do trabalho e, rapidamente, vestes algo casual e juntas-te a mim para mais uma travessia pelo Parque das Nações. Pela primeira vez neste dia, tenho outra bicicleta que me acompanha. A cidade, agora, é nossa. Não, minto. Dou um estimado valor à tua companhia, a sério, mas não consigo inserir-te naquele meu mundo e não compreendo porquê. Talvez seja porque pedalas devagar e eu sigo, constantemente, à tua frente.
O fim da tarde chegou. A noite avizinha-se. Pela rua, encontram-se agora outro tipo de pessoas. Os adultos que, antes do jantar, decidem ir correr um pouco, fazer exercício, marchar, passear os cães ou andar de bicicleta também. É toda uma comunidade que se reune ao longo do Tejo para o mesmo fim desportivo. As margens do rio passam a ser feitas de suor, de conversas sobre o fim do dia, de cães que se conhecem, de olhares cruzados, de respirações ofegantes, de choros de criança. O céu vai ganhando uns tons lilazes que muito em breve serão laranjas. Mas enquanto é o lilás que pinta o céu, eu admiro-o e lembro-me dos olhos dele, rodeados pelo mesmo tom. Durante breves segundos, compreendo a inspiração tola dos poetas.

Quando regresso a casa, é já de noite e não sou mais desejado nas ruas de Lisboa. Sem luz no meu bicho de duas rodas, arrisco-me a fazer parte do proibido por lei, caso me aventure por essas estradas fora. Mas a noite não me atrai para essas aventuras como o dia o fez. Está frio e ela já está entregue ao seu descanso merecido.
Volto a ser o André. Aquele que faz parte de uma família. Aquele que tem uma casa, um pai, uma mãe, uma cama e um piano no quarto. Não sou mais parte da cidade. Não sou mais fantasma da calçada quente. Sou um rapaz com responsabilidades, que coloca o prato na máquina de lavar quando termina de comer. Sou um rapaz que tem trabalhos para fazer e planos para concretizar. Sou alguém que perde tempo à frente do portátil.
Dias como este, dizem-me que sou um homem livre. Um homem que pode fazer e ir até onde quiser. Só tenho que ir.
Guess
P.S.: A faixa número cinco era esta.
Monday, March 22, 2010
Uma Questão de Sangue
Desde que ela se foi embora, tens sido a minha companhia. Ela faz-me falta e tu ajudas-me a suportar a distância que nos separa e levas-me contigo para os velhos tempos da nossa inseparável união. Aquele mundo de muitas cores e sons peculiares. Não és, de modo algum, fruto do meu interesse em completar aquele pedaço de mim que em Londres agora habita. Mesmo que sejas uma pequena consequência, és a melhor pequena consequência deste ano.
Continuas a surpreender-me com aquilo que sentes, com aquilo que se passa nesse teu mundo azul. Neste fim-de-semana, tiveste que ir visitá-la. Aquela senhora tua avó que conseguiu furar o teu coração com tanta dor que ainda hoje a sentes. Não me quero estender com palavras sobre aquilo que ela fez ou sobre o quanto te magoou porque, apesar de tudo, os sentimentos são teus e não tenho o direito nem a sensibilidade necessária para sobre eles poder falar. Imagino o horror que foi, imagino o horror que hoje ainda é. Tu não o mostras, nem falas muito sobre isso. É aquele teu pequeno dom de que eu tenho particular apreço. É um terramoto, é algo atroz, é o fim do mundo, mas tu consegues descrevê-los de uma forma tão calma, tão suave e tão feliz, que pouca importância parecem ter. Parece que a ti nada te magoa. Parece que a ti, o mal passa ao lado, pois se há alguém que ri mais que ninguém neste pequeno planeta, esse alguém és tu. Mas sei que não és assim. Eu sei que te dói. Eu sei que choras quando ninguém vê. Eu sei que também és frágil e compreendo. Compreendo e identifico-me com a forma como pulas, ris e cantas, não deixando ninguém perceber que há ali qualquer coisa que te está a roer o coração naquele dia. Eu compreendo e não faz mal.
Tiveste que a ir ver. Tiveste ainda que ir limpar o lugar onde ela habita, pois, se ninguém o fizer, ela poderá acabar a viver em tua casa por falta de condições. Que castigo cruel teres que ir limpar a merda que aquela senhora fez ao longo destes anos todos. Anos esses em que não a quiseste ver. Uma casa mais parecida com uma lixeira e uma senhora que nos causa dor só por olharmos para ela. Uma casa sem frigorífico, com pacotes de leite abertos e com o prazo expirado em 2001. Uma casa onde os excrementos foram deixados ao abandono antes de chegarem à casa de banho. Uma casa onde o resto do peixe do almoço de há dois anos atrás ainda habita a carpete da sala. Como é que consegues? Como é que conseguiste? Deve ter-te custado tanto. Deve ter-te custado não só porque se tratava de uma lixeira autêntica, mas porque se tratava da lixeira dela. Imagino o dia horrível que tiveste. As lágrimas que choraste. As horas que ficaste acordada durante a noite. O cheiro que ficou contigo.
Hoje li o que escreveste. Escreveste sobre isto:
Lembrava-me de ti de cabelo escuro, meio encaracolado nas pontas. Sempre solto.
Lembrava-me de ti com uma bengala, baixando as costas.
Lembrava-me de ti a falar alto, entre os poucos dentes que tinhas. Nenhum em cima e 4 em baixo.
Hoje chegou (finalmente?) o dia.
Olhei para ti e nem me reconheceste.
Quando ouviste a minha voz e percebeste que era para ti soltaste um Ai. Um Ai amoroso. Um amoroso teu. Mesmo peculiar.
Não me lembrava de como eras. De como respiravas devagar. De como olhavas sempre para as pessoas de baixo para cima. De como fechavas a boca com o lábio de cima tapado pelo de baixo.
Em como falavas.
Em como eras engraçada a falar.
Em como eras despachada.
Em como barafustavas em voz alta.
A minha mãe mandou-te calar. E nessa altura identifiquei-me contigo. Com essa voz alta e respondona, aquele tom de brincadeira irritante.
Saí a ti...será?
Não estava a espera de te abraçar. De te dar um beijinho. E te pôr pingos nos olhos. De me rir das tuas parvoeiras.
Estava a espera de não conseguir. De não te perdoar. De não querer estar ali. De não querer estar ao pé de ti.
Mas foi bom. Não é que tenha esquecido tudo. Não é como se não se passasse nada. Mas...fiquei com a estranha sensação de ter perdido o teu tempo.
De ter faltado à tua velhice. De não estar contigo. De te ir ver agora só porque estavas no hospital.
Agora não quero que partas. Agora quero ao menos te conseguir perdoar. Porque até gosto de ti...apesar de isso ser uma questão de sangue.
O tempo corre ao teu lado. E só espero que não te percas nele.
Só espero conseguir segurar-te a mão quando o relógio parar.
Deixaste-me atordoado. Deixaste-me confuso. Sentiste tudo aquilo que achei que não irias sentir. Ao fim de todos estes anos, depois daquilo que ela te fez, ainda consegues ir lá e sentir o teu coração quente. Acho que gostava de ter a tua capacidade de perdoar. Não, espera, deixa-me tentar escrever isto novamente. Acho que gostava de me preocupar com as coisas o suficiente para poder perdoá-las. Quando alguma coisa me chateia, eu livro-me dela.
De qualquer maneira, o que sentiste não foi uma opção e acredito que, hoje, deve custar-te ainda mais sentires ainda carinho por aquela senhora. Se para mim é confuso, imagino o peso que não vai nessa tua cabeça de vento. É esta parte do ser humano que me assusta sempre. Aqueles sentimentos e sensações que surgem, de repente, e que não sabemos de onde vieram, que não conseguimos controlar. Não sabemos em que tipo de pessoa nos tornam. Fico desconfortável com a ideia de haver partes de mim que ainda não conheço e que, provavelmente, não consigo controlar.
Acho que é por isso que choro às vezes. Porque não me conheço. Porque não sei o que se passa comigo. Tenho orgulho em ti. Limpar a merda de alguém que nos fez tanto mal é algo digno de merecer todos os meus louvores. És a minha heroína.
Guess
P.S.: quem quiser visitar o canto aluado desta valente heroína que passe por aqui.
Tuesday, March 2, 2010
Dia de Cão
Não consigo chegar até junto dos meus colegas porque ele me chama e me diz que te encontrou e que lhe dói ver-te. Estás deitado junto à entrada principal do edifício da faculdade. Sou sincero contigo: não te acho o cão mais bonito do mundo, mas, mais tarde, vou perceber que estás mais perto de o ser do que agora o acho. Foste atropelado? Que te aconteceu? Tens a pata de trás toda esventrada em sangue. Consigo ver várias feridas, algumas bem fundas, consigo ver parte do teu osso. Levantas-te porque queres receber uma festinha. Não consegues pousar a pata no chão. Não é um bom começo. Acabo de te conhecer e já me fazes sentir pena de ti. Uma coisa é certa: estás abandonado. Acho que tens a sorte de ter vindo parar ao sítio certo. Há por aqui muito boa gente que não consegue passar por ti e ficar indiferente à beleza triste que existe no teu olhar. Adoro o teu olhar. Tens muita coisa nele. Consigo ficar a olhar para ele durante muito tempo. Que vou fazer contigo? Olha para mim, já estou sentado ao teu lado e já não consigo tirar a mão de cima de ti. És tão bonito. Que vou fazer contigo? Falo com a senhora da recepção do Dept. de Teatro, mas parece que ela já se adiantou. Chamou o Canil para te levarem.
Não quero canil nenhum. Obrigado, minha senhora, por ter tratado do assunto com tanta paixão. Ok, pronto, talvez não saiba que o Canil mata os cães se ninguém os procurar num prazo máximo de 15 dias. Já são quase 10h, mas não posso ir para as aulas e deixar que o Canil te leve. O que me irrita é que eu consigo ver no teu olhar que não precisas de mim. Que consegues continuar o teu caminho e deixar-me para trás. No entanto, vens atrás de mim e conheces duas meninas que, apesar de ainda não o saberes, não vão descansar enquanto não estiveres bem. A carrinha do Canil aparece com uma rapidez surpreendente. É a imagem do terror. Uma bagageira enorme onde se podem ver desenhados um cão e um gato que sorriem traiçoeiramente. Dois homens encorpados, vestidos com a mesma farda azul. Recolha de Animais o tanas! Acho que compreendes o que aquilo significa porque estás a apressar-te para a entrada do edifício, o mais longe possível dali. Eu falo com os senhores e digo-lhes que os seus serviços não são mais necessários, que se encontrou alguém para tomar conta de ti. Quem? Eu. Eu vou ficar contigo, eu tomo conta de ti. Com isto, comprometi-me. És meu para o resto do dia.
Depois dos homens partirem, ligo para a União Zoófila. Eu sei que eles podem ficar contigo até seres adoptado (mesmo que isso signifique ficares naquele lugar a vida inteira). Parece-me uma solução viável. Talvez prefiras continuar a deambular pelas ruas. Será que preferes? Odeio esta parte de mim que nunca percebe se está a fazer o que está certo. Vou ignorá-la, pode ser? Há um pequeno problema: devido aos temporais que têm assombrado Lisboa e não só, o albergue da União Zoófila está virado de pantanas e, neste preciso momento, eles não conseguem receber mais animais. Ela diz-me que fique contigo durantes uns dias até o problema estar mais ou menos resolvido. Acho que é o melhor que consigo arranjar, pode ser? Não te importas com isso. Queres deitar-te ao sol. Adoras que te dê festinhas. Eu dou-te festinhas. Não consigo parar de o fazer, seja como for. Ligo para o consultório da União Zoófila e eles aceitam receber-te hoje a qualquer hora. Vais ao v-e-t-e-r-i-n-á-r-i-o. Alguma vez ouviste esta palavra? Se a tua resposta é essa indiferença adorável, é porque és mesmo um cão abandonado. És novo, apesar de já pareceres muito crescido. A vida está a ser pesada para ti, eu sei que sim. Há uma outra menina que está disposta a abdicar do seu almoço para ir connosco ao veterinário. Só temos que esperar que a aula termine.
Os alunos passam por nós. Eles gostam de ti. Fico feliz por seres um bom promotor de comunicação. Eles falam comigo sobre ti e querem todos saber o que se passa contigo. Tu não queres saber de nenhum. Apenas quando percebes que eles trazem comida. Alguns dos alunos não percebem aquilo que eu estou a fazer. Perguntam-me pelos restantes 400 cães que estão abandonados por Lisboa. Perguntam-me porque é que não pratico estas boas acções com as pessoas que também vivem na rua. Com elas, partilho a tua indiferença. É a primeira vez que estamos os dois de acordo. Sinto-me mais próximo de ti. Sinto-te mais meu. Sei que já não queres ir a lado nenhum. Não porque sou eu que está ali, mas porque, ali, dão-te comida e festinhas. Ah, e porque há um tipo que está sempre sentado ao pé de ti. Também deve saber bem, creio eu.
As três meninas vão connosco ao veterinário. Temos sorte por ela ter uma carrinha. Tens sorte por eu não me importar de ir contigo na bagageira que, apesar de tudo, consegue bem com nós os dois. Não gostas de andar de carro, já percebi. Não gostas de olhar pelas janelas. Preferes esconder a tua cabeça junto das minhas pernas e ficares muito quietinho e ali aninhado até chegarmos. A médica demora a atender-te e, naquele momento, sabemos que estamos já atrasados para a aula da tarde. Portas-te como nunca vi um animal portar-se durante uma consulta. Estás calmo, paciente, cooperas com a médica. Estás triste. Ela fala para mim sobre tudo o que se passa contigo. Como se eu fosse o teu dono. Sinto-me responsável por ti. Quero proteger-te. Levas umas quantas picas e saímos de lá com comprimidos, receitas para levantar e uma amostra de uma ração que eu sei que vais adorar.
Por falar em ração, espero que compreendas que elas precisam de se alimentar. Eu não tenho fome, apesar de ainda não ter comido nada. Elas querem parar no McDonald's para comprar qualquer coisa bem depressa. O teu manifesto quanto a esta decisão é bastante claro quando vomitas a bagageira onde nos encontramos. Quando paramos, elas vão comer. Eu trato de limpar aquilo que sujaste. Não te vou mentir nesta parte, não penses. Foi o vomitado mais nojento que alguma vez limpei. Ela é realmente boa pessoa. Não acho que emprestasse o meu carro sabendo que poderias vomitar nele. O nosso espaço está mais ou menos limpo e estamos prontos para partir. Conseguimos chegar a tempo para a última hora da aula. Mas por muito rápido que vamos não conseguimos escapar ao facto de ainda não termos encontrado um sítio para tu ficares, enquanto esperas para ir para o albergue. Já ligámos para tanta gente... Parece que Lisboa + apartamento + cão não são coisas que se combinem por estes lados. Temos que arranjar uma solução.
Vomitas mais uma vez mesmo antes de chegarmos à faculdade. Desta vez, não tenho tantos jornais nem papéis para limpar a porcaria que sabes que fizeste, mas trato daquilo o melhor que posso. Pobre rapariga. O carro dela está uma autêntica pocilga. Fico surpreendido por saber que esperas por mim, que esperas por nós. No entanto, não me sinto seguro por andar contigo na rua. Tenho medo que me fujas. Não quero que fujas de mim e sei que a razão pela qual não o quero é porque já perdi demasiado tempo contigo para voltares a ser um cão abandonado. Acho que, na verdade, não me importa se queres continuar um cão vadio. A partir deste momento, não tens mais voto nesta matéria. Vou cuidar de ti e vais ser entregue à União Zoófila, que te dará as melhores condições possíveis. Falta apenas uma hora para a aula terminar e eu não quero ir. Não quero correr o risco de deixar-te cá fora e não voltar a ver-te nunca mais. Eu sei que estás bem entregue comigo. Tu também o sabes.Vais sabê-lo. Sabes?
Mais uma vez, fico contigo cá fora à espera delas. Não estou preocupado em ter falta ou não aprender o que quer que seja que esteja a ser ensinado. Sei que aquela aula serve para pensar em sexo. Prefiro passar tempo contigo. Tu preferes dormir. Devoras a ração que a veterinária nos ofereceu. Adormeces novamente. As pessoas continuam a passar. Falam comigo, falam connosco. Partilham as histórias das suas vidas que envolvem animais. Querem dar-te comida, mas a única coisa que permito que te ofereçam são festinhas. Tenho medo que vomites as porcarias que te querem dar. Começo a sentir orgulho em ter-te. Levantas-te do teu lugar e sentas-te ao meu lado, nas escadas. Estás cansado e queres dormir e, apesar de tudo, fazes um esforço para ficar ao pé de mim. Começas a adormecer e deixas a tua cabeça cair para a frente repetitivamente, tal como eu deixo quando adormeço nos transportes. Os medicamentos devem estar a fazer efeito. Coloco a minha mão por baixo do teu queixo e deixo-te adormecer ali. Olho para ti e fico feliz por já termos arranjado um sítio para ficares. Ficas em casa de uma das meninas até a União Zoófila estar pronta para te receber. Sei que vais gostar daquela casa. Eu vou lá visitar-te. Todos os dias.
A aula termina e elas voltam com mais companhia. A menina que conduz não nos pode levar até à casa onde vais ficar, mas vai nos deixar suficientemente perto para podermos ir a pé. Vomitas mais uma vez durante a viagem e eu já não reajo. Não conto a ninguém e mantenho-me calado. Tu olhas para cima, para mim, porque sabes que fizeste porcaria, mas eu sorrio e beijo-te a cabeça. Fico feliz por seres inteligente ao ponto de saberes que não deves deitar-te ou estar perto do teu próprio vomitado. É coisa com que não queres ter mais nada a ver. Consigo olhar para o teu vomitado sem sentir nojo. Deitas a cabeça sobre o meu colo e adormeces o resto da viagem que fazemos, mais uma vez, juntos naquela bagageira. Somos deixados no centro de uma cidade movimentada. Carros, pessoas, muito movimento e eu sei que estás assustado. Não confio em ti para andares ao meu lado. Não tenho trela para te levar. Tenho meu cinto da Pepe Jeans. Coloco-to à volta do pescoço e faço-te uma coleira que te assenta na perfeição. Caminhamos por aquelas ruas movimentadas, junto à estrada onde os carros passam. Sinto-me feliz, sinto-me em paz. Acho que é a primeira vez que, sozinho, passeio um cão que é mais meu do que qualquer outra pessoa. Finjo que estou a passear o meu cão. Finjo que não tenho nenhum sítio para onde ir e que estou apenas a passear-te. Tu estás contente a descobrir o mundo, a cheirar tudo à tua volta. As pessoas olham para ti, olham para nós. Ficamos bem juntos.
Lá mais à frente, encontramo-nos com ele. Tenho amigos que se preocupam contigo, que te querem conhecer, que se preocupam comigo, que me querem ajudar. Eu e tu ficamos felizes por o ver e continuamos a caminhada com mais um ajudante. Vamos para casa da menina que vai ficar contigo e que já lá está à tua espera. Quando lá chegamos, a cara dela não inspira felicidade nem segurança. Tu próprio o percebes porque hesistas entrar no apartamento. Recusas a mexer-te. Tenho que te pegar ao colo para te levar para dentro. Ficas em pé no sítio onde eu te pouso nos minutos seguintes. Estás com medo. Estás cansado. Estás triste. Vais para um canto de uma divisão e deitas-te no escuro sem dizer nada a ninguém. Sem sequer passarem 15 minutos, a campainha toca e sabemos imediatamente que são problemas a bater à porta. O senhorio quer-te dali para fora. Não podes ficar naquele lugar nem uma noite.
Pego em ti para irmos embora, mas tu recusas a mexer-te. Não obedeces quando te chamo. Ignoras-me. Estás a morrer? Como está a tua pata? Pego novamente em ti e levo-te para fora. Fazes uma enorme luta para não sair para a rua. Não te percebo, às vezes. Temos que limar algumas arestas se esta relação continuar. Já é de noite e não sabemos para onde ir. Mais uma menina vem ter connosco para te ajudar, mas também ela não tem a solução para os nossos problemas. Que fazemos, então? Caminhamos pelas ruas os 5, sem destino de paragem. Começamos a ligar para todas as pessoas que conhecemos. Amigos, ex-amigos, colegas, ex-colegas, namorados, ex-namorados, professores, ex-professores. Toda a gente. Toda a gente e ninguém te pode receber, mesmo sabendo que se trata de uma estadia temporária. Por fim, sentamo-nos num passeio. Já é tarde. Ponderamos a hipótese de ficares num hotel para cães. Pondero a hipótese de te deixar a dormir na minha garagem com um pedaço de cartão e um cobertor. Em minha casa não és bem-vindo.
Vamos ter com outra menina que mora ali perto e esperamos à porta do prédio dela. É nesta altura que decido testar a tua fidelidade para comigo. Será que já a tens? Soltamos-te do cinto e tu permaneces sentado. Eu começo a afastar-me sem olhar nunca para trás. No meu décimo passo, sinto-te a correr para junto de mim. Sorrio para ti e abraço-te. Não estou contente com o nome que te foi dado. Não quero que te chames assim. Ainda não encontrei nada que te sirva. Gostei quando ele sugeriu que te chamasses Papuça, mas não me parece que aceitasses o nome de bom grado. Sei como és esquisito. Sentamo-nos nas escadas do prédio da menina que lá mora. Estás tão cansado que rapidamente adormeces. Permanecemos os 5 junto de ti. Não queremos estar lá fora porque está frio. Enquanto dormes, nós pensamos numa solução, mas não sabemos o que fazer. Continuamos a ligar para quem nos vamos lembrando, mas sempre sem sucesso. Permanecemos naquele lugar durante muito tempo. Tenho a estranha sensação de que estamos à espera de alguma coisa. Sinto que estão coisas a decorrer e que estamos à espera delas, pois serão a solução para os nossos problemas. Outra vezes, lembro-me que não passamos de um grupo de amigos e um cão, sentados nas escadas de um prédio velho sem objectivo algum.
Eles têm fome e vão-se embora para comer. Ficamos os dois. Como no princípio, lembras-te? Quando eles partem, tu acordas para me fazer companhia. Desces as escadas para junto de mim e começas a lamber-me a cara. É o meu primeiro instinto afastar-te, mas rapidamente percebo que foi o gesto mais carinhoso que tiveste para comigo. Adormeces ao meu lado. Será que preferes morrer? A vida é uma m*rda, eu sei. A vida é um grande peido azul no meio do Universo (especialmente para ti). Gostava de perceber se o que faço está correcto. Não aos olhos dos outros, mas aos teus olhos. Estás contente por estar a fazer isto por ti? Não consigo percebê-lo. Não faz mal. Encontrámos uma casa para ti. Um menino veio agora ter connosco e, em poucas chamadas, encontrou uns amigos que podem ficar contigo temporariamente. Somos agora 6 pessoas a tomar conta de ti. Fazemo-nos novamente à estrada fria e tardia. Temos que ir a pé para lá, mas eu não me importo. Eles vão mais à frente e eu vou contigo cá atrás e canto para ti e fico feliz por seres o meu cão naquela noite fria.
Estás cansado. Eu paro de vez em quando para te abraçar e dar-te mais festinhas. Andamos, andamos, andamos. Estamos quase a chegar. A noite já vai longa e nós também. Por vezes, deparamo-nos com sinais e com postes no nosso caminho. Quero testar a tua perspicácia e deixo-te tentar passar por um lado, enquanto eu estou a passar pelo outro. Com um cinto a prender-te é difícil que consigamos os dois passar cada um pelo seu lado. Testo-te três vezes, mas tu nunca consegues perceber o problema. Ficas a olhar para mim com aquele teu olhar perdido e eu dou a volta e passo pelo teu lado para continuarmos a viagem. Chegámos.
A casa está cheia de pessoas. É pequena. Estás com pulgas e estás a morder-te. Tenho medo que eles reparem e que te mandem embora. Procuro parar-te, mas tu não consegues controlar. Elas estão a atacar-te com força. Estás tão cansado e deitas-te imediatamente no chão do corredor. Eu e os outros meninos temos que ir embora. Ficas bem? Não sei. Eu vou voltar para te buscar e te levar para o teu albergue. Vamos estar juntos novamente. Temos que partir. Quero-me despedir de ti e quero que seja especial. Também eu estou cansado e tenho já poucas forças para me manter no chão, junto de ti, para me despedir decentemente. Começam a dar-te festinhas e tu ficas derretido. Eles gostam de ti. Acho que não te importas que eu vá. Eu sei que não te importas. Levanto-me e afasto-me para junto da porta. Os meus amigos já estão lá em baixo, à minha espera. Na porta, olho para ti porque quero que repares que me vou embora. Quero que te levantes. Quero que venhas ter comigo. Quero que fiques a arranhar a porta quando eu a fechar. Quero que ladres. Quero que te importes. Mas tu não olhas mais para mim. Fecho a porta e desço as escadas.
Hoje, não sei de ti. Não sei onde estás. Não sei para que casa foste reencaminhado. Não sei como estás. Mas eu vou buscar-te muito em breve. Lembrar-te-ás de mim? Farás uma grande festa quando me vires novamente? Abanarás a cauda quando eu entrar na sala? Eu ainda penso em ti.
Para sempre, o teu André.
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Monday, January 4, 2010
London Milk Shake
Não consigo falar-vos de forma coerente e organizada sobre Londres. Não houve dias. Não houve um fim nem um início para eles. O tempo funcionou como um grande batido. Um batido com todos os sabores que o homem pode imaginar. É assim que Londres repousa na minha cabeça. O líquido espesso deste batido escorre-me pelas orelhas, pelo nariz, pelos olhos, pela boca, pelo rabo. É aquilo que eu agora urino, é aquilo que o meu corpo empurra cá para fora quando eu espirro. É a baba que sai da minha boca quando durmo.
Londres não é uma terra bonita de se ver. É uma terra perfeita para se viver. Perfeita para mim. Perfeita para nós. Um grupo bastante improvável de quatro (não três) pessoas, que combina tão bem com Londres como o doce de abóbora combina com o requeijão. Aquelas ruas foram feitas para nós, aqueles autocarros existem porque nós existimos, aquele quarto foi construído para nos receber.
As despensas querem todas ser como aquela pequena divisão. Com quatro pessoas para proteger viu-se obrigada a transformar-se num autêntico, mas necessário, caos. Esse caos ouviu coisas que mais ninguém ouvirá. A nossa roupa interior, nele perdida, assistiu a coisas que mais ninguém verá. O caos desapareceu e levou com ele a nossa vida ali. Tudo reaparecerá quando nós reaparecermos. Ele continuará à espera dos segredos dos nossos fins de noite e das músicas das nossas manhãs.
A noite de 31 de Dezembro foi algo como nunca se viu. A cerveja apagou parte dela, mas, felizmente, não a mais importante. Londres não fica em casa neste dia emblemático. O trânsito no centro é cortado e todos nós, vampiros daquela última noite de frio e de fogo, corremos para junto do rio e tornamo-nos nas margens mais bonitas do mundo inteiro. Aguardamos. O álcool aquece-nos. Faz frio. Dançamos. Rimos. Aguardamos. Caímos porque sim. Abraçamos quem quisermos. Falamos sobre aquilo que o álcool nos faz vomitar. Sorrimos. Saltamos. Procuramos sítios secretos para a urina evaporar. Voltamos. Aguardamos. Fotografamos quem tem um sorriso igual ao nosso. Corremos e cantamos. Olhamos para o céu. Aguardamos. Estamos cercados por pessoas. Aguardamos. Rimos e gritamos. Aguardamos. O frio desiste. Aguardamos. Os números aparecem. É agora. Cantamos. Pulamos. Não aguentamos. O zero está próximo. O chão desaparece. O calor está próximo. O zero vem aí. Gritamos mais um pouco. Os lábios ardem. O zero junta-se à festa. Os foguetes trazem com ele uma lenda. As pessoas explodem juntamente com os foguetes. Beijamo-nos. A meia-noite deixa de ser um projecto. Estamos ali. The Great Gig In The Sky. London Eye vomita as cores mais bonitas daquele céu. É tudo perfeito. O som que as milhares de pessoas emitem soa mais alto que os próprios foguetes. Estou bêbedo. Estou feliz. Sou a pessoa mais feliz do mundo. Aquele também é. O que está atrás dele também e a sua namorada ainda o é mais. O mundo é nosso. As margens do Thames acalmam e começa a nevar. É o nosso último presente. É a cereja no topo do bolo. Ainda temos força para pular mais uma vez. Não importa quem não está ali. 2010 vai ser perfeito.
Os restantes dias comprovaram-nos que 2010 será intenso. Seja a desafiar a gravidade num dos baloiços mais incríveis de Londres ou até mesmo a cantar a Defying Gravity no Wicked, um dos espectáculos mais bonitos que aqueles que gostam de musicais, e até os que não gostam, poderão ver. Os ringues de patinagem no gelo em Londres são surreais. Hipnotizam-nos e levam-nos para um lugar onde o Natal reina eternamente e onde aquilo que é arte e bonito se confude com as quedas mais hilariantes que a câmara devora como se fossem chocolates. Camden Market é muito mais que um ponto de encontro das pessoas mais esquisitas de Londres. Para além das milhares de montras que nos querem levar o dinheiro, é mais um sítio onde nós os quatro atingimos o supra sumo da felicidade. Sim, aquela cidade foi feita para nós. Foi feita para toda a gente. Foi feita para deslizarmos por aquelas ruas como se estivéssemos no America's Next Top Model. Foi feita para cabermos os quatro numa cabine telefónica. Para podermos dançar em várias discotecas diferentes noite fora e sairmos delas com vontade de entrar em mais outra, mesmo que o Sol esteja já a piscar-nos o olho.
Se a vida fosse um musical, Londres era o lugar ideal.
As pessoas que conhecemos e as histórias em que participámos criaram os versos mais bonitos de uma canção que ficará connosco para sempre. Nem incêndios em bar nenhum, nem carteiras roubadas, nem aviões perdidos, nem todo o frio do mundo poderá acrescentar à viagem algo de negativo. É como se fosse uma paleta de várias cores onde por muito preto que se acrescente ele será sempre devorado pelas restantes cores. Londres estava à nossa espera. Estava tudo preparado para acontecer quando chegássemos aos sítios. Quando eles passarem por aqui, aquela pessoa aparecerá. Quando eles falarem sobre aquilo a neve irá começar a cair. Quando eles entrarem por aquela porta terão uma supresa inesperada.
Fomos bem recebidos e queremos voltar. Queremos ficar. Ela perdeu o cachecol. Aquela perdeu o anel. A outra perdeu o pin. Eu perdi a carteira. Mas ganhámos todos muito mais do que perdemos. Muito mais do que toda a roupa e acessórios que encontrámos pelas ruas de Londres. Muito mais do que o tempo que ficámos. Muito mais do que quatro dias.
Aquela cidade já é nossa. Não chegámos lá no dia 30. Não fomos embora no dia 3. Ainda lá estamos e por lá vamos ficar. Afinal de contas, vivemos naquela espelunca há mais de 20 anos.
Será eterno.
Guess
P.S.: Quando cheguei a Portugal, esta música esperava-me.
Monday, December 21, 2009
O Natal Não Precisa de Pai Natal
740 crianças, 14 monitores, 7 grupos, 8 seguranças e 2 Pais Natal. A verdade é que quando nos dizem que o nosso trabalho não passará de uma mera distribuição de presentes e balões, não podemos nunca imaginar que iremos fazer parte de algo feio e contrafeito. Angola é a terra dos opostos. É um dos países com maior riqueza no mundo, mas é, ao mesmo tempo, um país onde encontramos o lado mais horrendo da pobreza.
Cá em Portugal, o Consulado de Angola dispõe de um conjunto de serviços simpáticos que levam, por exemplo, os angolanos residentes em Portugal a uma visita ao Jardim Zoológico. Mas o propósito desta visita supera em grande escala aquilo que os presentes, os balões, as músicas e as cores nos transmitem à primeira vista.
Há um embaixador. Um embaixador que gastou mais de 100 000 euros para promover a sua imagem e ganhar prestígio na sua terra longínqua. Este embaixador não pode sentar-se nos assentos da plateia, onde todo o seu povo assiste ao Espectáculo dos Golfinhos. Sem o seu lugar VIP habitual, este embaixador precisa de almofadas para não machucar o seu rabo. Este embaixador precisa também de 8 seguranças que, para além dos seus fatos pretos, óculos escuros e auriculares, recebem sem problemas mais de 1500 euros por estarem ali. Mas este segurança tem tudo pronto para que as crianças se divirtam e possam ir para casa sem se esquecerem de quem arranjou tudo aquilo para elas.
Há uma tenda. Uma tenda enorme que dá abrigo a centenas de presentes para rapazes e para raparigas. Nessa tenda existe ainda um altar sinistro, onde repousa sobre uma mesa devidamente centrada um retrato do embaixador, cercado por uma moldura dourada e resplandecente. As crianças são obrigadas a fazer uma fila no exterior e a esperam ansiosamente a sua vez de serem compradas. Os pais ficam lá fora, claro. Não queremos que eles tenham a oportunidade de olhar para aquela montra colossal e escolher o presente que os seus filhos mais certamente iram gostar. Não, os filhos recebem aquilo que receberem. Se tiverem nome, dinheiro ou influência recebem um presente mais caro e mais espectacular. Se não tiverem nenhuma destas virtudes devem ficar felizes com uma bola de futebol ou um patético boneco do Rucca que nem sequer sabe cantar. E quem tem o poder de escolher e de entregar em mão o presente mais apropriado se não o embaixador e a sua mulher, a cônsul? São precisas fotografias que reportem a bondade destas duas pessoas e é preciso que as crianças saibam o que elas são capazes de fazer. O quê? Não gostas de futebol? Vais passar a gostar.
Depois de receberem o presente com o desdém mais inumano, que se figura numa empatia artificiosa nos breves segundos do click da máquina, as crianças são rapidamente conduzidas para fora da tenda. Lá dentro, no quentinho, com cadeiras para descansar e mesas decoradas com doces e aperitivos, ficam somente as crianças sortudas que têm pais fantásticos com muito dinheiro.
O Pai Natal pouco ou nada importa nesta acção solidária. Ele não pode dar os presentes porque não sabe o que é que cada criança pode ter. Não! Essa criança não leva esse presente. Onde é que vais com esse embrulho, Pai Natal? Pai Natal, desvia-te mais um pouco que estás a tapar o embaixador na fotografia. E enquanto um fazia o que podia para distribuir estes presentes de forma mais justa, o outro Pai Natal estava sentado na sua mítica poltrona, junto a uma bela e luminosa Árvore de Natal. Ele era como se fosse a figura que tinha dado uma pequena ajuda ao embaixador na concretização deste dia inesquecível. Mas o verdadeiro Pai Natal, o verdadeiro Senhor Bondoso de Barbas Douradas e Cinto de Cabedal era o embaixador. O pequeno cenário deste Pai Natal parecia algo pobre e triste, esforçando-se para se fazer notar, ao lado direito do pedestal do verdadeiro senhor.
Mas não faz mal porque as crianças que viam o Pai Natal lá de longe e que eram empurradas novamente para o exterior da tenda podiam contar com um fantástico espectáculo de magia e de palhaços, com muita música e muitas bolas de sabão. Só que por vezes estas manobras extravagantes, que tapam as verdadeiras intenções, podem ser perturbadas. Não se deixem comprar! Não aceitem este dinheiro corrupto! Não aceitem os presentes!, gritava ele. São perturbações de solução rápida e eficaz. Nada que uma música alegre, conffetis e dois seguranças brutamontes não resolvam e varram para longe.
Quando foi a minha vez de abandonar a tenda, dando os meus serviços por terminados, os presentes ainda existiam às centenas e a cônsul já ordenava, atrás de mim, que fechassem as portas e não deixassem entrar mais crianças. Cá fora, elas gritavam e empurravam-se para entrar, mas já era tarde. As que já tinham o seu presente corriam desvairadamente à volta de um Palhaço que já não conseguia sorrir. Quando olhou para mim, mostrou-me a maquilhagem da sua cara, borrada e garrida. Encolheu os ombros e sorriu com uma expressão que lamentava todo aquele teatro inevitável e incontornável. Afastei-me dele sem o poder salvar.
Não contem comigo para o próximo ano. Feliz Natal.
Guess
Tuesday, September 8, 2009
Comforting Sounds (O Cemitério de Benfica à Noite)
Eram uma e tal da manhã quando, ontem, subimos por aqueles caixotes e saltámos os muros altos do Cemitério de Benfica.
Uma pequena estátua da Virgem Maria descansava sobre aquele muro altíssimo.
Um passeio que deve ter durado pouco mais que uma hora em que me desafiei a mim próprio a sentir-me cem por cento confortável e relaxado naquele lugar.
Forçámo-nos a ir a todos os cantos daquele cemitério gigante, especialmente aqueles que não nos agradavam visualmente e não nos inspiravam confiança.
Confirmámos que todos os estereótipos que os filmes nos mostram sobre os cemitérios à noite são tudo verdades. As sombras, os corvos, as intermitentes lâmpadas vermelhas das campas, os barulhos não identificáveis, as luzes ligadas de salas preferencialmente vazias, os corredores largos e intermináveis, protegidos de ambos os lados por árvores de tronco espesso, as formas estranhamente humanas que identifcamos no escuro, a lua quase cheia que ilumina as lápides.
Dizíamos não ter medo, mas nunca ninguém consegue ficar indiferente a sons que surgem bem perto de nós.
Dizíamos não ter medo, mas aquelas lâmpadas vermelhas e pequenas, que iluminam as lápides, criam um espectáculo arrepiante.
Dizíamos não ter medo, mas era sempre perturbador reparar como zonas do cemitério faziam lembrar pracetas ou ruas habitadas por pessoas vivas.
Conseguimos o nosso momento de paz, é verdade. Sentámo-nos os três num banco, que nos entregava uma vista macabra para um longo descampado, onde os mortos sem dinheiro mereciam apenas um pedaço de terra e uma tabuleta com um número identificativo.
Conseguimos ficar sentados alguns minutos sem proteger as nossas costas.
Quando nos levantámos, nenhum zombie com a respiração pesada aguardava que reparássemos nele.
À medida que nos aproximávamos da saída - entenda-se, o lugar onde secretamente trepámos o muro - o nosso passo aumentava de ritmo. Ouvíamos sons cada vez mais estranhos. Flores nas portas de jazigos pareciam-nos mãos de pessoas a tentar sair, caminhos começavam a não ter saída.
Encontrámos o lugar por onde entrámos e demos uso a um daqueles escadotes metálicos, necessários para o manuseamento das gavetas dos mortos.
A última pessoa escolhida para abandonar o local teme sempre que algo de errado aconteça e não haja tempo para escapar.
A Virgem Maria continuava no seu lugar, à nossa espera.
Os cemitérios são lugares bonitos. À noite continuam a ser bonitos e são, na verdade, mais seguros que qualquer outro parque público em Lisboa.
Talvez faça parte daquela beleza horrível, mas a mim não me agradam as falsas velas. As pequenas lâmpadas que funcionam através de energia e simulam velas de verdade. São feias. Estão quase sempre intermitentes.
Talvez tenha sido por isso que, quando voltámos ao muro de gavetas, que foi a nossa porta de entrada e de saída aquela noite, estava uma vela de verdade acesa.Iluminava suavemente a gaveta de onde estava suspensa.
Eu tenho a certeza, e ninguém me tira esta certeza, de que quando entrámos para o cemitério, uma hora antes, aquela vela estava apagada.

Guess
Thursday, May 14, 2009
A Torre da Galp
Não vos trago palavras de um post importante ou sequer interessante, mas achei que era impensável não partilhar com vocês a conquista de mais um objectivo de vida por parte do vosso morcego. Nada daqueles grandes marcos que se luta toda a vida para alcançar - até porque desses, não tenho nenhum -, mas daqueles pequenos doces da vida que gosto sempre de apanhar. Como ir nadar para uma praia nu, durante a noite. Esse já o concretizei o ano passado. Com muito gosto!
Pois bem, desde que vim morar para o Parque das Nações que sempre tive o desejo secreto de subir até ao alto da Torre da Galp. Já ouviram falar dela? Para quem não conhece este monumento, aqui está ele...

Sim, todos os bons frequentadores do Parque das Nações já viram esta pila enorme, que tão pouco parece ter a ver com os prédios que a rodeiam. Se bem se lembram, o Parque das Nações, antes de ser a Expo '98, era um parque industrial ou melhor, uma autêntica lixeira. Mas nem tudo foi derrubado. Como tal, em homenagem à fábrica da Galp que aqui existia, decidiu-se deixar erguida a famosa torre, que era conhecida pela chama constante que saía da chaminé mais alta. Já estou a fugir ao assunto.
Tantos dias passei eu por ela e me imaginei a subi-la na minha ânsia de rapaz armado em rebelde, que gosta de fazer coisas ilegais. Sim, porque aquilo tem um portão com grades, que não deixa qualquer margem para dúvidas de que se trata de uma propriedade privada com acesso interdito. Foi hoje o dia.
E tão feliz estou eu por ter partilhado a subida com a nossa... não, hoje, é minha... com a minha MJNuts. A subida foi longa e não tão cansativa como esperaria que fosse, mas a vista soberba que lá em cima habita valeu a pena todos os degraus ultrapassados. Acredito mesmo que seja o ponto mais alto do Parque das Nações e é lindo. A zona é bonita vista de cima. Percebem-se melhor as formas e os encaixes dos edifícios uns nos outros.
Durante o descanso merecido, no topo da torre, houve as partilhas. A conversa surge fluentemente, ajudada por aquela brisa forte e brutal, mas nem por isso desconfortável. No entanto, nem foi preciso tagarelar muito. Como eu adoro estar com alguém onde o silêncio é sempre bem recebido. O dia de hoje reforçou um pensamento que já vagueia pela minha cabeça há muito tempo...
Como era bom haver um mundo sem palavras. Um mundo onde a comunicação fosse feita através de todas as maneiras possíveis, sem usar as mesmas palavras aborrecidas, que procuram sempre expressar e descrever até à exaustão tudo aquilo que se está a sentir.
Meus amigos, é tudo. Foi uma tarde agradável. E silêncio é muito bom.
Guess
Friday, April 24, 2009
Amália Hoje
Alguns já o devem saber. Os que não sabem têm que ficar a saber que um idiota chamado Nuno Gonçalves (pertencia à banda The Gift) decidiu que estava farto de bater umas pívias em casa e achou por bem começar um projecto ao qual designou Amália Hoje. O projecto tem por base pegar no fado que a Amália Rodrigues cantou e adaptá-lo para uma versão mais pop. E quem mais poderia cantar esta piroseira desnecessária se não a Sónia Tavares, a vocalista dos The Gift!! Como se não bastasse o projecto ser improfícuo e escusado, ainda escolhem aquela mulher, que, claramente, deve estar desejosa para pegar no fado e transformá-lo naquelas coisas que ela canta, com aquela sua voz estranha tão típica da sua pessoa. Ainda para mais, já muitos que a viram deambular pelas ruas me disseram que a mulher tresanda a antipatia e gosta de dar nas vistas com o seu ar snob. Nunca na vida é uma criatura destas merecedora de cantar os versos da Amália.
A ideia é atrair uma massa maior de gente e eu percebo a tentativa. A maioria dos jovens de hoje tem uns gostos que deixam um pouco a desejar e é necessário que a música se adapte às novas preferências deles se quer ser vendida - mas isto é lógico. No entanto, não acho justo estarem a usar o fado para este esquema comercial. Quem não gosta do fado genuíno, daquele fado mesmo fado, que canta a crueldade dos dias e a solidão das noites, acompanhado pelo gemido da guitarra portuguesa, não gosta e pronto! Não podemos agradar a gregos e a troianos. Custa-me a mim ver as palavras que a Amália escreveu, e que vieram lá bem do fundo da sua alma, na boca da Sónia Tavares.
Ainda só saiu um single deste álbum que está para breve e, a verdade, é que está a fazer um sucesso tremendo. Quase toda a gente está a gostar desta nova vertente, que puxa o fado das ruas e becos de Alfama para a MTV Portugal.
O problema maior reside no facto de aqui o vosso morcego estar confuso. Sejamos francos, não é como se este projecto fosse capaz de pôr de lado o fado tradicional português. E será que a música é assim tão feia quanto isso? A mim entristece-me saber que a minha mãe - pessoa que sempre deu valor ao fado e preservou na sua memória para sempre a letra do Povo Que Lavas No Rio, que a comove de uma maneira inexplicável - prefere o single da Sónia Tavares à versão original! É preciso dizer que este single é uma adaptação da Gaivota. Da Gaivota!! Podiam ao menos ter pegado em cantigas menos presentes em mim. Se ainda não sabem, fiquem a saber que a Gaivota é o meu fado preferido, depois do Lavava no Rio Lavava, claro. Mais pessoas partilharam comigo que a instrumental da nova versão não é má de todo, mas a mim faz-me confusão.
A verdade é que, de tantas vezes ter ouvido a música, sinto que começo a deixar de desgostar dela. Amália, perdoa-me. Sei que deves estar a berrar na tua campa, mas há um poder qualquer estranho naquela nova versão. Deve ser aquela voz absorvente que a Sónia tem.Mas mesmo se houver uma parte de mim que gosta daquela música horrenda, uma parte muito pequena e insignificante, fica sabendo, Amália, que o fado que abraça o meu coração pertence a ti e a mais ninguém.
Meus caros, dramático como sou (you know me), fui ainda mais longe e fiz uma montagem que tem as duas versões do fado da Gaivota a disputarem uma com a outra. Sejam vocês os juízes:
Sei que podemos ver isto como duas músicas diferentes, mas se aquela gaja continua a cantar os fados da Amália daquela maneira eu não me calo por essas ruas fora. E ai dela que toque no Lavava no Rio Lavava. E agora mete-me pena e fico de coração partido naquela parte do vídeo em que a Amália está calada a ouvir a outra parva, que não percebe que o fado não pode ser cantado daquela maneira.
Guess
P.S.: Ah! A minha mãe já anda por aí a dizer que vai comprar o CD da Sónia Tavares quando sair! Eu não dou permissão, nem pensar!
Tuesday, April 21, 2009
Pequenas Caixas
Para aqueles que não fazem a mínima ideia o que é este projecto, fiquem a conhecer a curta-metragem que tive que realizar para a minha cadeira de Realização naquela escola cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado e já foi referido aqui.
Quis eu criar uma história de protesto ao regime fascista que existe na minha escola e o resultado foi uma pequena sociedade isolada do mundo, abandonada num determinado lugar, obrigada a viver num padrão de igualdade, como objectos. No entanto, a minha mensagem é uma de esperança. Pois basta haver uma só alma que decide não se conformar com aquilo que lhe é imposto para mover os restantes sofredores e instaurar uma revolução justa e necessária.
Durante os poucos anos que habitei este mundo, sempre tive alguns problemas em lidar com aquilo que eu era e aquilo que queriam que eu fosse. A parte de mim que entrego com este filme é aquela que diz não me vou nunca esquecer que me chamo André Martins.
Queria só deixar, mais uma vez, a minha eterna gratidão a todos aqueles que estiveram presentes naquele domingo caloroso em que filmámos a curta. Muito mais que excelentes actores, foram verdadeiros amigos. Uns tiveram que faltar ao trabalho, outros tinham exame no dia seguinte, outros estavam de directa por terem trabalhado durante a noite, outros tinham assuntos bem mais importantes a tratar, mas estiveram todos lá e sei que não sou o único que se orgulha daquilo que foi conseguido. Obrigado. Foi um dia importante.
E agora, sem mais demoras, eis o pequeno conto:
Meus amigos-actores, eu entrego-vos, depois, um CD com uma cópia com melhor qualidade para a poderem guardar para vocês.
Guess
Thursday, April 9, 2009
Thursday, April 2, 2009
Lavava no Rio Lavava
Tenho a dizer que estranhei um pouco todo o ambiente de rigidez e seriedade que pairava por aqueles lados. Eu sei que, no fundo, faz sentido. A tradição do Fado diz-nos que Este é uma coisa triste e pesada que deve ser sentida em silêncio, mas mesmo sabendo isto, fiquei de certo modo admirado pelo respeito imenso que aquelas senhoras e aqueles senhores tinham para com Ele. Eu e os meus amigos éramos, praticamente, os únicos jovens ali presentes. Fomos até sortudos o suficiente para conseguirmos arranjar uma mesa. Parecíamos um pouco deslocados. Até porque muitas senhoras estavam de vestido e alguns dos homens traziam fatos escuros e tinham, quase todos, aqueles lindos bigodes dos homens da velha guarda. Mas naquele espaço tão pequeno e apertado, era quase impossível não ouvir os murmúrios inevitáveis dos portugueses, que gostam de comentar tudo aquilo que estão a sentir. Uma atitude que era constantemente reprimida pelo senhor, que estava a anunciar os fadistas, com um tão estranhamente engraçado 'csssssssssssssssssss'. Uma forma menos óbvia e desagradável que o comum 'shhhhhh' para mandar calar os inoportunos, enquanto o Fado estava a ser cantado.
Os fadistas lá da casa cantavam todos (ou quase todos) lindamente e o facto de não poder estar alegramente a conversar com os meus amigos e ter sido obrigado a ouvir e a sentir o Fado, deu-me a confirmação de algo que eu sempre soube - o Fado é mesmo das coisas mais belas que Portugal tem. Não importa. Já vos dei o ambiente e o contexto; agora dou-vos a história.
M. levanta-se e vai perguntar ao dito homem se eu podia ir cantar o Fado.
O homem que anunciava, já de idade e com uma postura e atitude que impunha respeito a qualquer um, aproximou-se da nossa mesa e perguntou se eu sabia cantar o Fado. Aqueles que estavam comigo, reagiram imediamente com elogios forçados e patéticos à minha voz para convencer o homem que eu realmente cantava bem. Não sei até que ponto enganaram o pobre coitado. Eu sei que não canto mal, venha lá quem vier, mas não creio que me encaixasse na perfeição que o homem estava a averiguar se eu possuía. Convencido, apesar das minhas tentativas para o afastar, tomou nota do meu nome.
Eu fiquei num estado de nervosismo como nunca antes tinha ficado. Sentia o meu coração bater em todas as partes do meu corpo, como se estivesse prestes a fazer o exame mais importante da minha vida. Longos minutos passaram e muitos grandes fadistas encantaram aquele espaço tão acolhedor, que vivia num ambiente escuro de fraca iluminação. Inevitavelmente, o meu nome foi dito. O homem referiu que esta não era, para ele, uma das alturas mais importantes da noite, mas que a casa estava aberta para toda a gente que soubesse e quisesse cantar o Fado. Juntei-me aos guitarristas, que tocavam lindamente, e fiquei rodeado de dezenas de pessoas, como se estivesse numa pequena clareira de uma floresta. Lavava no Rio Lavava, pedi eu.
Claro que não iria cantar outra coisa. Este é, pois, dos poucos Fados que é importante o suficiente para mim para eu o saber de cór. As guitarras procuraram o meu tom e começaram a gemer o seu canto. Os meus ouvidos ouviram, pela primeira vez ao vivo, aquele som tão triste e tão incrivelmente belo que acompanhava um Fado que sempre significou tanto para mim. Fechei os olhos e deixei de estar ali. Demorei uns segundos a perceber quando deveria entrar, pois o ritmo do Fado é algo complicado de apanhar. Mas percebi que funciona um pouco como um rio. É uma corrente lenta de água que passa à nossa frente. Não sabemos ao certo qual a melhor altura para saltar, mas, assim que o fazemos, estamos já entregues àquele ritmo e velocidade viciantes e nada nos separa deles.
Não sei se cantei bem ou mal. Sei que nunca tinha sentido algo daquele género. Eu, que acho sempre que já esgotei todo o tipo de sensações, estava agora a experimentar algo do outro mundo. Não me lembrava sequer que estava num bar, não pensava nisso. Estava noutro lugar qualquer a sentir um turbilhão de coisas, embaladas pelo choro das guitarras portuguesas.
Se já não lavo no rio porque me gela este frio mais do que, então, me gelava?
A música terminou e acho que as pessoas aplaudiram. Pelo menos, assim mo contaram porque eu não tenho mesmo a certeza. Não estava bem em mim. Estava emocionado e demasiado confuso pelas palavras que tinha cantado me terem saído com uma facilidade surreal. Não sei se cantei bem ou mal, mas M. diz que se arrepiou e a verdade é que o meu pobre homem me convidou a aparecer quartas-feiras à noite, quando quisesse, para cantar.
Achei que, no meio de tantas tretas que escrevo aqui neste nosso blog, devia partilhar com vocês uma noite que me entregou um dos momentos mais importantes da minha vida.
Hoje estava a cantar o Fado no autocarro. A Mulher de Vermelho disse-me que se tivesse a minha voz saberia logo o que fazer com a sua vida. Para não a desperdiçar.
Por vezes, pergunto-me se não sou uma daquelas vivalmas que, à medida que os anos passam, se afastam da promessa do seu potencial para fazer outra coisa. Como um diamante bruto que não foi aproveitado e se estragou.
Para quem quiser ouvir o Fado que cantei:
Guess
P.S.: Mas este post não faz justiça àqueles 3 minutos de Fado, que deixaram em mim uma sensação qualquer permanente, como se tivesse deixado algo naquele lugar.
Saturday, March 7, 2009
Farinha, Farinha, No Cu da Galinha Incha
Farinha.
Não é o meu apelido oficial, é aquele nome que vem antes do último, ou seja, aquele que nunca fica muito conhecido e nem sempre é associado à própria pessoa. Como é óbvio, não é com ele que assino o que quer que seja e raramente o uso e, como tal, poucas pessoas sabem que assim me chamo. Algumas sabem que tenho alguns complexos com ele (tenho?).
Na minha pré-primária e primária, os tempos que rondavam eram aqueles em que, claro, as crianças eram cruéis - nem se poderia esperar outra coisa; está na natureza delas. Naqueles tempos, tinha que haver sempre alguma coisa que fosse permanente a alguém e com a qual se pudesse gozar e apontar. Ora, assim que se descobriu que um dos meus nomes era Farinha, nunca mais fui eu capaz de me livrar dos constantes escárnios e comentários parvos das crianças das escolas. Farinha, faz-me um bolo; Farinha podre; Farinha fica na cozinha; chamas-te Farinha, chamas-te Farinha... patético, não? Eu, como criança que era, não reagia muito bem aos ataques. Não era algo que me afectasse muito, mas fazia-me ter vergonha do meu apelido e querer sempre escondê-lo.
Os anos passaram, as crianças cresceram e, rapidamente, perceberam que havia coisas BEM mais interessantes na minha pessoa com que se gozar que um estúpido nome. Eventualmente, o Farinha foi posto outra vez em sossego e quase nunca mencionado.
Março de 2008: altura em que me tornei monitor do Jardim Zoológico de Lisboa. Uma profissão que exige que trabalhe com quem? Com crianças! No entanto, não havia qualquer motivo para temer que o nome, com origem no meu lado materno, fosse retirado da prateleira outra vez, após tanto tempo. Até porque, sendo o meu último nome outro, seria de esperar que o meu cartão de identificação apresentasse tudo menos o Farinha. No entanto, o meu último nome estava destinado a servir milhares de outras pessoas em Portugal e, com tal vulgaridade, vi-me obrigado a usar Farinha como o apelido oficial, para evitar confusões e eventuais problemas de contabilidade, pois uma dessas milhares de outras pessoas tinha que trabalhar no mesmo local que eu. Consecutivamente, o meu cartão passou a identificar-me com o Farinha depois do meu primeiro nome.
As crianças são cruéis, não são? Todos os fins de semanas de trabalho no Zoo é como se tivesse voltado aos meus tempos de pré-primária e primária. Farinha, vamos aqui; Farinha, vamos ali; oh, Farinha, faz-me lá um bolo; Farinha!, Farinha!, Farinha!, Farinha!... e até alguns pais meio malucos não resistem em gritar um moche ao Farinha! ou variantes. A última que ouvi foi Farinha, Farinha, no cu da galinha incha - achava eu que era um ditado qualquer que existia, mas não passa de um fruto estranho da imaginação das criancinhas. O Farinha está de volta. Mas sabem? Eu não me importo. Aliás, eu gosto, eu adoro que me chamem Farinha. Poucas pessoas o sabem porque eu contesto sempre e finjo-me incomodado. Sendo eu um alvo fácil e preferido por muitos para se gozar, não é difícil fazê-los usarem este meu estimado apelido de cozinha. E quanto mais nos mostramos incomodados com certa coisa, mais as crianças gostam de a provocar (todos nós sabemos controlar as pequenas criaturas, não é?).
Por isso, sim, eu adoro o meu nome. O pequeno Guess não percebia ainda o valor dele, mas agora percebo e sinto-me bem por ele fazer parte da minha identidade. Ah, Zoo... consegues sempre fazer-me feliz. Sempre.
Em conclusão, não te preocupes Inêz, um dia vais perceber a uniquidade do teu nome. Não fiques triste, B. Magalhães, o computador está aqui está a ir à falência e a ser retirado do mercado. Não ligues ao que os outros dizem, Rosa, não é vergonha nenhuma ter o nome de uma flor tão especial. Este parágrafo é, pois, para algumas das crianças que festejaram comigo os anos da Madalena este sábado no Jardim Zoológico. Uma festa em que, curiosamente, falámos imenso sobre os nomes.
Guess
Obrigado, avô. És tu quem me faz sentir um orgulho enorme em chamar-me Farinha.
Monday, March 2, 2009
Morcegos Mostram as Suas Caras
A ocasião não podia deixar de ser perfeita, mas o contexto em que a fotografia foi tirada não foi, talvez, o mais indicado. Passo a explicar:
Como muitos de vocês sabem, a nossa MJNuts festejou os seus anos com mais uma das suas lendárias festarolas, que duram noite fora. Estando o Carnaval a rondar aquela data, a nossa anfitriã não resistiu em exigir que todos aparecessem mascarados (another year!). O pessoal adora sempre estes planos e, obviamente, começou a preparar as suas máscaras. Mas há algo que o pessoal adora ainda mais que máscaras. O quê? Máscaras que gozem com a MJNuts, claro está! E que máscara é mais apropriada para isso numa época tão festiva se não a máscara da sua própria pessoa? Ah, pois é. Fomos todos mascarados deste grande modelo para adultos e crianças que é a MJNuts!
Encontraram-se por aí ainda algumas alminhas que andavam meio perdidas, sem saber como encarnar uma personagem tão peculiar, mas a estrutura era bastante simples: roupa feia; roupa curta, que não sirva; roupa que não combine; ténis velhos; cabelo despenteado; e óculos. Eis a chave para termos um ser que, se não se parecer muito com a MJNuts, ao menos parece-se com um outro vestido por ela.
E assim surge, então, a fotografia dos Morcegos deste blog, onde poderão verificar, pelo menos, um esforço para estar tudo parecido com a MJNuts. Poderão confirmar isso pelas nossas vestimentas nada a ver com as nossas caras.

Houve quem achasse que a nossa morcega pudesse ficar ofendida com esta nossa imitação caricatória da sua pessoa, mas a verdade é que isto foi sempre (*cof-cof*) uma despedida em grande ao estilo antigo e desleixado da aniversariante, agora que ela diz que está em processo de makeover. Por falar nisso, será que ainda demoram a aparecer as fotografias que mostram o depois dessa mesma makeover, como a MJNuts nos prometeu?
Essas resoluções andam a ser cumpridas ou não?
Guess
Monday, January 26, 2009
Estou Aqui Estou a Levar Um Tiro
Tenho um post na ponta da língua sobre um assunto mais importante que quero tratar com vocês, mas, neste momento, vão aturar a minha pessoa being a drama queen.
À semelhança da nossa singular MJNuts, também eu trabalho no Jardim Zoológico de Lisboa, onde, estranhamente, recarrego as minhas baterias, todos os fins-de-semana, para suportar mais uma semana de ausência de plenitude. Um destes sábados, preparava-me para guiar as minhas crianças de 8/9 anos para o interior da área zoológica, quando uma pirralha se aproxima de mim e diz-me:
Nunca antes tinha falado com ela, mas seria de esperar que se risse de mim ao observar os meus olhos esbugalhados, mas, em vez disso, afastou-se para junto das suas amigas. Não foi uma rapariga que tenha causado quaisquer problemas durante o resto da tarde e nunca mais se falou sobre isso. O vosso morcego ficou, pois, terrivelmente encantado com o presságio (vêem como é giro dizer "presságio"?) da moça, o que seria de esperar. Se alguns sinais de medo mostrei eu a alguém foi simplesmente pela piada do drama, claro.
Mas o vento trouxe brincadeiras. Poucos dias depois (3?), passei uma noite inteira a sonhar. Lembro-me de ter, pelo menos, 4 sonhos, apesar de um ter sido mais longo e memorável. Nesse sonho, estava eu num hostel qualquer em França e era de noite. As ruas estreitas lá por perto tinham aquela tonalidade laranja dos candeeiros, mas não importam agora os pormenores. O que importa é que parece que havia alguém naquele lugar que andava atrás de mim para me dar um tiro! Sei que existia um motivo; não me lembro bem qual - tinha riscado o carro a alguém... Não sei. Sei que eu estava a morrer de medo, observando todas as pessoas que estavam à minha volta, porque sabia que, a qualquer altura, qualquer uma delas poderia sacar de uma arma e disparar contra mim. Pânico!
Mas o Guess acha piada a estas coisas, não é? Então, toma lá mais um! Esta tarde, uma colega minha da ESTC revelou-me que tinha tido um sonho deveras estranho e confuso e que eu entrava nele (adoro estar nas luzes da ribalta!). Passava-se na Estação de Comboios de São João do Estoril e parece que aquilo por lá estava um caos semelhante ao fim do mundo. Havia uns homens quaisquer a fazer umas trafulhices bizarras. Carros passavam nos carris, em vez de comboios. Uns homens estavam a deitar gasolina sobre um comboio e depois pegaram-lhe fogo, fazendo-o explodir. Isto tudo estava a ser observado pela minha colega, que estava com uns binóculos. De repente, um homem com uma arma aponta a mira para ela, fazendo-a correr que nem uma maluca. Havia por lá imensa gente, ao que parece. Pessoas a gritar, eu sei lá! Sei, que, entretanto, apareço eu a correr ao lado dela! (ai eu...) Escondemo-nos os dois atrás de uns arbustos a observar todo aquele panorama até que somos surpreendidos por trás por dois homens com armas. Começamos a correr, mas eu sou agarrado. Quando a minha colega olha para trás, vê-me levar um tiro na barriga, a ser regado com gasolina e a pegar fogo rapidamente!
Sim, o Guess gosta destas histórias. Destas coincidências que a vida lhe traz e de que ele tanto adora fazer um drama. Seja como for, estou aqui estou a levar um tiro! Haha. Não importa. Querem partilhar alguma novela comigo? Eu adoro estes contos.
Peço apenas uma coisa às minhas colegas morcegas: se eu, de facto, morrer com um tiro façam um post sobre os presságios da vida e como devemos sempre tê-los em conta! NOT!
Thursday, January 1, 2009
Os Mauzões da Disney
Ah... como nós agora adoramos um bom vilão que ameaça o mundo cor-de-rosa dos heróis. Contrariamente a isto, quando éramos ainda uns pequenotes, dávamos tudo para que eles não aparecessem mais do que uma vez. Pelo menos, assim me contam, porque eu não me lembro de ter grande pavor aos mauzões. Lembro-me, sim, de colegas meus que saíam da sala, onde estavamos a ver o filme, nas alturas em que eles apareciam, mas o vosso Guess - versão reguila - foi sempre fiel àquilo que a Disney preparava para ele.
Quero apresentar-vos, então, o Top 9 dos Vilões mais horríveis e mais assustadores da Disney. E, com isto, refiro-me àqueles que ainda hojem metem medo aos mais novos. Nada daqueles malfeitores cómicos ou sempre estilosos e inteligentemente cooles, como o nosso grandioso Hades! Este top exclui também os parvónios e cabeças ocas, como o Gastão. Juntamente com ele, ficam de fora também aqueles vilões que, apesar de cometerem as maiores atrocidades possíveis de imaginar, não têm uma postura ou uma presença suficientemente evil para assustar os putos - por exemplo, o Ratcliffe da Pocahontas, que queria acabar com a raça dos Índios!
Sem mais demoras, aqui estão eles! Os Vilões mais Vilões. Aqueles que nos fazem fazer xixi na cueca. Os extraordinários...
9. SCAR (Rei Leão)
O motivo pelo qual este grande personagem está em último é porque o nosso querido Scar está apenas a obedecer ao seu instinto animal. Ele é um leão! É suposto os leões lutarem uns com os outros para serem o rei da manada. Mas é melhor não me meter a tagarelar muito sobre os bichos, que a MJNuts ainda vem aqui corrigir cada palavra minha! Não importa. Scar, se este fosse outro género de top (o dos mais fixes ou coisa semelhante) estarias, certamente, com os primeiros. Ânimo!
Não encontrei vídeo mais curto que o pudesse apresentar.
8. A MADRASTA (Cinderela)
Nesta casa encontramos uma senhora, que muitos ainda se lembram, que era a madrasta má da nossa querida Cinderela. O pai desta moça casou-se com ela e, pouco tempo depois, morreu misteriosamente, deixando a pobre Cinderela entregue aos cuidados desta mulher bastante evil, que a passou a tratar como uma autêntica escrava. Creio que a mim tocava-me imenso quando os Vilões eram humanos. Eram muito mais próximos da minha realidade, enquanto criança.
Perdoem-me por não ter encontrado a versão brasileira, mas terror pior sofri eu ao descobrir que já existe a Cinderela 3!
7. JAFAR (Aladdin)
Encontramos, então, o Jafar que, por pouco, não deixava de constar neste top para se juntar ao Hades e a outros Vilões mais sarcásticos e cómicos. Apesar daquela trapalhada por detrás da sua elegância, ele tinha uma ambição terrível: queria a Lâmpada Mágica para se tornar no Sultão da Índia. Mais à frente, ainda deseja, estupidamente, tornar-se no Génio mais poderoso de todo o mundo. Pobrezito. Génios ficam na lâmpada.
Eis o momento que lhe dá lugar neste post. Quando se transforma naquela cobra gigante. Mais uma vez, nada em brasileiro.
6. FROLLO (O Corcunda de Notre-Dame)
E aqui está mais um vilão humano. Este senhor fiel a Deus, capaz de tudo para salvaguardar os seus ideais bastante conservadores, típicos daquela época medieval. Ele mete tanto medo com o seu olhar possuído e com a sua vontade irracional de querer queimar toda a Paris só por causa de uma cigana. A verdade é que já não era a raça cigana o grande mal. Era o desejo ardente que ele sentia por aquela mulher e lhe custava suportar e admitir. Uma personagem muito bem construída.
Há partes do filme que põem mais em claro a sua grande maldade.
5. RATAGÃO (O Rato Basílio)
Eis uma personagem não muito conhecida nos dias que correm. No mundo escondido dos ratos, existe uma ratazana nojenta e fedorenta que é o grande chefão da máfia. O seu plano diabólico? Construir um robô igual à Rainha de Inglaterra para simular a entrega do poder da monarquia a si próprio. Depois disso, adeus Rainha. Não, ele não está a tentar fazer frente a uma senhora da realeza. Passa-se tudo no mundo paralelo dos ratos, que é, em tudo, semelhante à vida londrina. Muito bem construída a realidade, por acaso. A sério, esta ratazana é mesmo cruel e diabólica e tem sempre uns golpes bastante sombrios.
Viram no vídeo a Gata dele, que come os seus ratos inimigos? Muito creepy!
4. A RAINHA (Branca de Neve)
Toda a malta sabe quem é esta malvada clássica da Disney. O seu motivo para matar a Branca de Neve não era o mais plausível - queria ser a mais bela do Reino -, mas não importa. Tinha todas as motivações para ficar marcada como uma grande mázona. No entanto, por mim ela ficava colocada mais atrás na tabela, mas não podemos negar que ela é como que a raiz do mal da Disney. Merece algum crédito por isso.
O momento de transformação. Não encontrei vídeos dela mais para o fim do filme, quando está desesperada a tentar empurrar uma pedra pelo precipício abaixo. Ela aí está bastante mais assustadora.
3. CRUELLA DE VIL (Os 101 Dálmatas)
Cá chegamos aos 3 primeiros deste top. E quem mais é digno para ocupar um deles, se não a famosa Cruella De Vil? Meus caros amigos, esta mulher é terrivelmente assustadora. Como se não bastasse estar completamente obcecada por exterminar a ninhada de cachorrinhos de uma quase amiga para fazer casacos de pele, ela é também doente da cebeça. A mulher é completamente chanfrada e diabólica. E eu adoro-a por isso!
Ela em brasileiro tem uma voz mais assustadora.
2. ÚRSULA (A Pequena Sereia)
Em 2º lugar temos a grandiosa, a esplendorosa, a maravilhosa Úrsula! Não me venham dizer que não tinham medo deste bicho quando eram pequenos, porque eu não acredito. A Úrsula era má, era gorda, tinha uns tentáculos horripilantes, uns olhos brilhantes e assustadores e estava sempre em cantos escuros nas profundezas do oceano. Uma vilã à séria e com inteligência! Soube exactamente como articular o seu plano para tramar a estúpida e BURRA da Ariel para chantagear o Rei dos Mares - o Tritão - e poder tornar-se ela a Rainha. E conseguiu! Ela foi a maior! O problema é que o seu destino, que a Disney traçou, terminava com a morte. Tiveram que se livrar dela, espetando a ponta de um navio na sua barriga. Malditos sejam! Ela era demasiado poderosa para morrer dessa forma!
Vai Úrsula, vai Úrsula!
1. MALÉVOLA (A Bela Adormecida)
E em primeiríssimo lugar está a Malévola, a vilã do filme baseado na grande obra de Tchaikovsky. Ela é sensual, ela é elegante, ela é discreta, calma, silenciosa e, aparentemente, inofensiva. Mas é tão má, tão má, tão má, que até custa olhar. É a versão feminina de Satanás (até os chifres ela tem!). Guardando rancor por ter sido banida do reino, amaldiçoa a filha da realeza com um feitiço que resultará na sua morte aos 16 anos ao picar o fuso de uma roca. Esta feiticeira tem um poder e uma força fenomenais. Consegue controlar as pessoas, consegue aparecer onde quer, surgir em forma de uma luz, espalhar energias negativas, ela consegue tudo! E mete tanto medo... Para além do mais, ainda consegue transformar-se num dragão gigante! Sim, a Malévola era a única vilã que me conseguia dar pesadelos há uns anos atrás. Parabéns. És a maior.
Só te faltava uma música tão boa como a da Úrsula. Tu não tens nenhuma.
É tudo, meus caros. Muitos de vós devem discordar com a ordem acima enunciada, mas os nossos medos são pessoais.
Guess
P.S.: Pena os vilões morrerem todos de formas todas elas muito pouco dignas para aquilo que eles são.