Friday, January 16, 2009

The Curious Case of Benjamin Button


David Fincher é o único realizador do qual já vi todas as longas-metragens (quando vir o The Wrestler do Aronofsky o número aumenta para dois). Além de que acabei de saber pelo IMDb que ele é o realizador do Who Is It, que é uma das minhas músicas preferidas do Michael Jackson e um dos vídeos também. Mas divago.

Apesar de já ter visto todos os filmes do Fincher, e de ter gostado de todos, não há nenhum que se aproxime propriamente da marca dos meus grandes favoritos. Adorei o Se7en, como fã de policiais/thrillers que sou e o Fight Club já está a pedir uma revisão, porque lembro-me de adorar o filme quando vi, mas a memória já está tão dispersa que seria quase hipócrita da minha parte considerá-lo um favorito. Os restantes vi, com muito gosto, apreciei o excelente trabalho de Fincher, não fiquei arrependida do tempo gasto e segui em frente com a minha vida.

Mas estava destinado que fosse diferente com este The Curious Case of Benjamin Button. A única coisa que eu sabia sobre ele é que era a história de um homem que nasceu fisicamente velho em vez de bebé e que tinha o Brad Pitt e a Cate Blanchett (que são dois bons motivos para passar um par de horas numa sala de cinema). Não sabia exactamente o que era esta história deste homem, apenas que era a sua história. Não me vou perder a avaliar a excelente componente técnica do filme, com a caracterização sem falhas, as actuações magníficas e a banda sonora de respeito (na onda do tão perfeitamente integrada que é o filme, não o acompanha, nem lhe destaca as cenas, apenas coexistem na perfeição - que nem a banda sonora do The Hours), porque essa não é a minha área.

Antes de mais, há que esclarecer o nascer velho. Eu estava já a rogar pragas mentais, a pensar como é que seria plausível sair um homem velho dum canal vaginal! Mas nunca duvidem do Fincher. E, já agora, não duvidem do bom senso do F. Scott Fitzgerald, autor do conto que deu origem ao filme. Benjamin Button nasceu velho, sim senhor, mas isto é o que querem dizer:


Benjamin Button é uma pessoa como todas as outras, mas cujo processo de envelhecer é ao contrário. Mentalmente, o processo evolutivo dele é como o de todos nós. Fisicamente, ele vai ficando com um aspecto cada vez mais novo com o passar dos anos. Ou seja, vemos um velho caquético a ter comportamentos infantis, a aprender as regras de etiqueta, a aprender a ler... Tudo o que é normal numa criança, mas num corpo idoso.

O que eu não esperava deste filme é que... Bem, ele é literalmente sobre a vida de Benjamin Button. Suponho que seja por isso que muita gente se queixe da duração dele. Começamos antes de Benjamin nascer e percorremos todo o seu curioso percurso até à morte. Vemos as pessoas à sua volta a ficarem encarquilhadas e decrépitas, os velhos do lar de idosos onde vive a morrerem, enquanto ele vai ficando cada vez mais em forma. Tudo isto a um passo ritmado, como é o da vida, com as experiências a irem acontecendo, as pessoas a cruzarem o caminho dele e a saírem, as viagens...

Isso é o que torna este filme tão especial. É um retrato de uma vida. Da vida tal como ela é, apesar de este personagem ser tão peculiar. Já todos vimos filmes épicos, biografias, histórias de vida contadas no cinema... Mas são histórias daquelas pessoas. O que torna The Curious Case of Benjamin Button tão único é que, apesar dessa diferença aparentemente fulcral que é o rejuvenescer em vez de envelhecer, a vida dele podia ser a de qualquer um de nós. Descobrir como se anda e fala, como se usa talheres. Conhecer pessoas que nos contam histórias e nos ensinam a tocar um instrumento. Encontrar o primeiro amor. Descobrir os prazeres do corpo e dos maus hábitos. Crescer e sair de casa, partir à aventura.

Todo este processo torna-se ainda mais bonito, porque vemos os dois lados da moeda. Vemos Benjamin a rejuvenescer e Daisy, nascida mais ou menos na mesma altura, a viver o processo normal. Vemos como há uma ligação imediata, é ele um velho praticamente careca e corcunda apesar dos seus menos de 10 anos e ela, a linda criança ruiva e de olhos azuis. Vemos como ele fica mais novo e ela mais velha, apesar da idade semelhante, e como tantas vezes se desencontraram porque não era o tempo certo. Vemos, por fim, a felicidade de se terem encontrado a meio do caminho.

É uma história de amor belíssima, porque é um amor que faz parte da vida, é tão natural como crescer. Nada me aqueceu tanto o coração numa sala de cinema como o decorrer das cenas em que finalmente, por uns anos, Benjamin e Daisy se encontraram no meio dos seus percursos de vida.

Mas o tempo não pára. Nem mesmo quando o relógio anda para trás.


Há quem diga que o filme apela constantemente à lágrima, o que se torna cansativo. Há quem diga que há pormenores impensáveis, como a quantidade de coisas que Daisy escondeu da filha. Acho que nada disso interessa. E não vejo onde está o apelo constante às lágrimas.

Apeteceu-me sorrir muito mais vezes do que achei lágrimas adequadas.

Nada do que eu possa dizer faz justiça à experiência que é ver este filme. Durante 3 horas, ou quase, parece que a vida dura aquele tempo, que é assim. Não tiraria nem uma cena.

MJNuts

8 comments:

Twin said...

Bem eu ainda n vi o filme mas quero buéee ir ver!! Quando o trailer pensei logo: eu quero ir ver este filme. O trailer está bem feito! Por isso li o primeiro paragrafo do teu post e passei directamente para a zona dos comentarios lol. Quando vir comento, é pena é já teres ido ver que ía mesmo perguntar-te se querias ir ver o filme comigo este fim-de-semana lol Bolas pá!

Enfim... comentário inútil eu sei.Sorry. Quis expressar a minha frustação de ainda n ter visto o filme e portanto ainda n puder ler o post e mt menos fazer um comentário de jeito. :P

Morcegos no Sótão said...

Ali para o fim já estava a começar a chatear-me. E sinceramente o filme tem um GRANDE problema: o Benjamim não tem personalidade. De todo. Parece que não é ele que acontece à vida (apesar da sua gigantesca singularidade) mas a vida é que lhe vai acontecendo a ele e ele aceita qualquer coisa. É único e no entanto é a personagem mais banal delas todas. Bizarro.

Lili

Morcegos no Sótão said...

SPOILER ALERT para este comentário!

Tens razão, Lili.lol Eu achei essa bizarria muito interessante, por acaso. Apesar de discordar da parte de ele não ter personalidade (porque ele tem, ou não teria recusado os avanços da Daisy quando ela era praticamente adolescente e não teria abandonado a família porque seria demais a Daisy criar 2 "crianças"), acho que efectivamente ele aceita muito bem o que lhe vai acontecendo. É uma pessoa serena, que aceita o que a vida lhe trouxer. Não vejo nada de mal nisso, porque a Vida é algo tão grandioso que a vida de um de nós não fará qualquer diferença ao plano maior. Benjamin deixou que a vida lhe acontecesse e experimentou mais do que a maior parte das pessoas pode dizer ter vivido.

MJNuts

Morcegos no Sótão said...

O homem quase não reagia às coisas que lhe aconteciam! Ah sou teu pai! Nada. Ah morreu toda a gente no navio. Nada. Ah vou bazar com o meu novo namorado. Nada. Ah a tua mãe morreu. Nada. Essas vezes que mencionaste foram as unicas vezes em que ele tomou uma opção. De resto ele nunca fez nada. Ele nunca foi nada. As coisas que lhe aconteciam pareciam não ter efeito nenhum nele. Uma coisa é sereno outra coisa é anestesiado. Ela pelo menos parecia querer viver.

Lili

Nia said...

Lol "Ah morreu toda a gente no navio". Concordo com a Lili. O filme ficou um pouco aquém das minhas expectativas, depois de um trailer tão portentoso e com um realizador do tão genial Fight Club, estava à espera de uma coisa "bigger than life", mas nao, foi precisamente o oposto, a banalidade da vida. É uma bonita, vá, história de amor que quase nos parte o coração e digo quase porque lhe falta qualquer coisa, não sei o quê porque tou praqui a mandar bitaites mas na verdade não percebo nada do k estou a escrever :p

Morcegos no Sótão said...

Mas "bigger than life" já são os filmes em geral... Estamos sempre a desejar ser e viver experiências "bigger than life", quando a verdade simples é que a banalidade da vida também tem muito por onde ser apreciada!

Eu acho que ele reagia à sua maneira em todas as situações. Ele sofreu quando morreu toda a gente no navio e também sofreu quando a Daisy quis ficar com o novo namorado. Mas ele não era muito expressivo com as emoções, pelo menos nunca pareceu. Na 1ª situação sofreu para dentro, na 2ª ele sabia que algures no meio, eles iam reencontrar-se.

MJNuts

Sara said...

ola. isto nao tem nada a ver com a vossa conversa, mas eu tenho uma duvida.´
Nao é possivel um bebé nascer velho certo?!

(desculpem a ignorancia)

Morcegos no Sótão said...

Que eu saiba, não é possível um bebé nascer JÁ velho (e muito menos fazer a velhice ao contrário, ou seja, ir ficando novo), mas existe o Síndrome de Envelhecimento Precoce, em que as células destas pessoas envelhecem e se desgastam a uma velocidade muito acima do normal e portanto as pessoas são novíssimas, às vezes ainda crianças, e já têm aspecto de velhas.

Podes ver neste site alguma coisa sobre isso, mas não é muito: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/sindrome-hutchinson-gilford.htm

MJNuts