Monday, September 10, 2007

Adolescente...

Preparo-vos já para um post mais pessoal do que o que é hábito por aqui. Pelo menos o que é meu hábito.

Acredito que cada experiência é uma oportunidade para o auto-conhecimento, só depende de nós aproveitá-la. Chega a um ponto em que já nos conhecemos bastante e é preciso mais trabalho para nos surpreendermos a nós próprios. Mas acontece.

É preciso muita coragem, muita honestidade, para olharmos para dentro e sermos capazes de nos ver. Por mais que não queiramos, o ser humano é uma entidade obscura. Com potencial para o Bem e para o Mal. Por mais que preguemos o Bem, está inato, inerente em cada um de nós, a capacidade de fazer o Mal. Resta-nos aceitá-lo e combatê-lo. Ou negá-lo e viver com a culpa de que tal coisa existe.

Os segredos mais pesados são os que escondemos de nós mesmos. É preciso um trabalho solitário, doloroso, pesado para admitirmos a nós próprios as nossas falhas, os nossos defeitos, o que tantas vezes fazemos de errado e só nos fica mal.

Faz parte do crescer. A infância, para o comum e feliz mortal de classe média, é uma redoma de vidro. Um globo daqueles com água e que tem floquinhos de neve que flutuam suavemente com a ondulação. Esse é o mundo que conhecemos em crianças, enquanto vivemos o mais protegidos possível dos perigos que há lá fora.

Mas chega uma altura em que já conhecemos os flocos. E já sabemos de cór cada porção de vidro. E já nadámos em todas as ondulações e percorremos todas as correntes. Então aquela abertura no fundo do globo é a oportunidade de um mundo novo. É a chave da exploração e da conquista.

E crescemos e saímos e somos adolescentes. E já não temos desculpa quando fazemos disparates porque já saímos do globo e ainda não temos permissão para fazer tudo porque acabámos de sair de lá.

O corpo muda e a mente também. E é tudo confuso e tudo deixa de fazer sentido. Existo porquê, mesmo? Qual é a minha utilidade? Não podia ser ainda criança? Não posso já ser mais velho? Desde quando é que tenho borbulhas? Porque me interesso subitamente pelo sexo oposto? E de onde veio esta raiva contra o mundo em geral?

A adolescência é, acima de tudo, um percurso interior. Um percurso interior a que muitos fogem. Os adolescentes têm o poder. Um adolescente pode tornar-se no que quiser se assim o desejar. Aos 12, 13, 14, 15 é-se um ser humano em potência. Não temos vícios, somos refrescantes, não estamos presos ao hábito porque tudo é tão novo que o conceito de rotina é embrulhado num universo de surpresas. Podemos ser preguiçosos e ir na onda em que nos transportam ou podemos tornar-nos naquilo que gostaríamos de ser, podemos trabalhar para isso.

Os adolescentes são muitas vezes, injustamente, colocados no "saco social" do velho estereótipo da idade do armário e da idade da parvoíce. Sim, há adolescentes parvos, como há crianças idiotas e adultos estúpidos. Isso é da pessoa, não da fase da vida.

Ser adolescente é lindo. Não sei se há algum adolescente a ler-me, mas é bom que saibam isso. Ser adolescente é sofrer e estar sozinho, mas é lindo. Muitos adolescentes só se têm a si próprios e aos outros adolescentes. Há os pais que deixam de compreender os filhos e se viram para os irmãos mais novos e ainda na infância fácil. Ou que simplesmente ignoram e se desculpam com o preconceito da "fase". Há os professores que já têm mais com que se preocupar e não querem saber. Há uma ausência de apoio, há um desamparo que dói e magoa e traz consigo uma certa irreverência, uma certa rebeldia. Nós sozinhos contra o Mundo.

E então elevamo-nos e achamo-nos tão maiores. Tão melhores. Estamos acima de todos e percebemos tudo melhor e já vivemos tudo e já sabemos imenso. E tornamo-nos algo arrogantes e pretensiosos sem disso termos noção.

Mas é só uma defesa. Um adolescente é socialmente exibicionista por natureza. Daí a tendência para as novas experiências, nem sempre aconselháveis. Fumar é fixe? Apanhar besanas é do melhor? Fazer sexo porque já ninguém é virgem?

Não há pressa. A vida não acaba com a adolescência. A vida começa com a adolescência. Não precisamos de fazer tudo, de cometer todos os pecados e todas as asneiras para gostarem de nós. Quem interessa, gosta das inseguranças e dos sorrisos, das brincadeiras e dos pequenos passos.

Há tempo para aprender que existem pessoas completamente diferentes de nós. Assim como existem pessoas tal qual como nós. Existem vegetarianos e existem gays. Existem racistas e existem chineses. Existem pessoas que sofrem por coisas ridículas e pessoas que suportam dores inimagináveis. Há de tudo porque somos pessoas e no fundo somos muito parecidos em muitas coisas, se conseguirmos apenas ter a humildade de ver, compreender, aceitar a diferença. Aceitar a semelhança.

Sou muito adolescente, ainda. Será que serei sempre? A novidade assusta-me até que a assimilo. A inocência é, por muito estranho que possa parecer, uma característica que prezo muito e que se vê tão bem nos olhos das pessoas... Falo como os adolescentes e sou meio resmungona. Tenho os hábitos de sono completamente absurdos que se diz que as hormonas dão aos adolescentes. Sinto-me crescida e responsável quando me tratam como adulta que já sou. Sinto-me feliz e excitadíssima quando me envolvo em brincadeiras de criança. Que há de mal em correr? Andar às cavalitas? Balões de água?

A vida não tem de deixar de ser divertida. A vida não se pode levar a mal, é sentir e viver.

Sou fã de adolescentes. E vejo beleza no interior de todos eles. Há uns que são aves raras por excelência. Há os feitios complicados. Há os rebeldes crónicos e os inseguros crónicos. Há os calados e os extrovertidos. Há aqueles tão raros que são compreensivos (e isso é maravilhoso!).

Há muitos tipos de adolescentes, como há muitos tipos de pessoas. Qualquer que seja o tipo, o Mundo corre dentro deles e podem ser tudo.

Não se preocupem com as borbulhas. Nem com as gorduras. Nem com as intrigas. Não vale a pena fazer grandes dramas com os rapazes e as raparigas. Esqueçam os gostos iguais aos de toda a gente e encontrem a vossa identidade, que estar integrado não é ser idêntico. Se acham que não são amados o suficiente, se acham que o pai, a mãe, o irmão, a Abelha Maia, não vos dá atenção suficiente, queixem-se. Se ninguém vos curte, larguem a paranóia. Se são cruéis, esperem receber o mesmo em troca. Se são orgulhosos, chorem sozinhos. Se não têm orgulho, uma pequena dose dele faz sempre falta. Cresçam e riam e aproveitem.

Feitas as contas, numa vida bem vivida, o velhote chega ao seu dia final e confessa que nunca deixou de ser adolescente.

MJNuts

3 comments:

K1111 said...

Ai a Maria que eu adoro vai toda ali...

CHESB

Ludovico M. Alves said...

Realmente. Este texto tem aquele espírito adorável da Maria. Brincando, por vezes maldoso, inteligente, e naturalmente feliz.

Duriel said...

Eu também sou adolescente! mas também qual é a idade para deixar de ser? 19? nineTEEN? ainda sou, por essas contas... Mas acho que vou ser para sempre!