Friday, April 23, 2010

Código Secreto

Para uma pessoa a dar para o descontrolada e inconveniente como eu, há certas coisas que me tiram do sério. Não são coisas importantes. Não tem a ver com ir a grandes jantares e pôr os cotovelos na mesa (coisa que apanhei do meu pai e nem sabia que era etiquetamente errado, enfim). Não. As regras de etiqueta são ou podem ser, em geral, ensinadas. A etiqueta, muitas vezes, envolve uma certa falta de educação quando não é cumprida. Não digo que a pessoa só diga asneiradas e humilhe toda a gente e não respeite os outros, não é essa falta de educação a que me refiro. É a falta de uma educação mais... fina, social.

Mas, neste caso, eu não estou a falar de etiqueta e sim daquelas regras de conduta secretas que todos os traunseuntes portugueses sabem ou pelo menos deveriam saber. Nunca ninguém fala nelas, mas elas existem e toda a gente sabe. É um grande segredo comunitário que liga a nossa existência no espaço partilhado por todos: a rua. É o Código Secreto. Como isto é segredo, se alguém não cumpre, não pode ser acusado de falta de educação. Só pode ser acusado de excelente capacidade de irritação.

Já estão a identificar alguma destas regras a que me refiro? Não?

Vou começar por uma simples, que em mim até não provoca danos quando não existe. Acabei de chegar a uma estação de metro, de comboio, uma paragem de autocarro... Estou sozinha. Onde me sento? Se responderam na ponta, estão certos. Se responderam no lugar ao lado do da ponta, também estão certos (isto porque o Código Secreto é compassivo e abrange as pessoas que, por motivos de obsessão-compulsão, têm graves problemas de pontas). E porquê a ponta? Porque, meus amigos, eu posso estar sozinha, mas pode vir a seguir um grupo de três amigos e querem todos sentar-se. É um pouco chato ficar um de pé, não é? Se fosse eu com os meus amigos, gostaria que alguém tivesse tido esse cuidado a sentar-se. São estes pequenos gestos. Mas como eu referi acima, quando alguém acha que o rei faz anos e se senta no meio, com ar de quem está no sofá da sala, não me incomoda por aí além. Geralmente, quando chegamos a uma estação ou paragem, é porque o nosso meio de transporte não está muito longe de chegar, por isso dá para aguentar um pedacinho em pé. Ainda assim, essa pessoa devia olhar menos para o umbigo e mais para a maravilha antropológica a decorrer à sua volta.

Outra das regras do Código Secreto é a já aqui debatida questão das escadas rolantes. É que francamente! As escadas são largas! Quer apreciar a paisagem, ponha-se do lado direito! Quer falar com amigos, faça lá cedências e fale de cima para baixo ou de baixo para cima durante um minuto, em vez de lado a lado. Será que as pessoas não se apercebem quando atrapalham o movimento normal das restantes?! Argh.

Enquanto as duas regras anteriores não consigo dizer que são do mundo, apenas reduzi-las à realidade que conheço em Portugal, esta aqui tenho a certeza que é internacional. Se um banco corrido de qualquer estação da CP em Lisboa dá para 7 ou 8 pessoas à vontade, ainda que algo apertadas, o máximo que se vê lá sentadas são 5, no máximo dos máximos 6 e é porque houve greve de comboios! Porquê? Porque isto, mais do que Código Secreto, é psicologia humana. Toda a gente tem direito ao seu espaço pessoal e só se entra nele quando convidado. Por isso aquelas 5 ou 6 pessoas estão o mais apertadas que conseguem sem terem de tocar umas nas outras. Por isso, nas horas de ponta em qualquer transporte, as pessoas esticam-se e encolhem-se o mais que podem, de forma a terem de tocar o mínimo possível no mínimo de pessoas possível. Se isto não estiver a acontecer, é porque ou estão no metro de Paris ou então está algum engraçadinho a assediar-vos.

E porque a minha capacidade de observação não é assim tão vasta, acabemos com a regra do Código Secreto que mais me irrita quando não é cumprida. Associo-a ao comboio e metro em Lisboa, principalmente comboio. Ora bem, não é hora de ponta, o comboio tem imensos lugares vazios. As pessoas podem não saber que há um Código Secreto, mas executam-no inconscientemente. Enquanto os houver livres, há apenas UMA pessoa em cada grupo de 4 assentos. Quando já há um indivíduo por cada 4 assentos, os novos passageiros têm de escolher a pessoa com quem lhe parece menos mal passar o resto da sua viagem. Mas atenção que esta pessoa chegou primeiro, já lá está. Durantes os curtos minutos das viagens daqui ali, a pessoa que chegou primeiro é senhora do Reino dos 4 Assentos. Como se presta vassalagem a est@ monarca de 10 minutos? Não se sentando à frente del@!!! Qualquer pessoa normal, se se puder sentar confortavelmente e estender as pernas à vontade, é assim que quer estar sentada!

(Vou fazer pausa para respirar fundo, porque isto irrita-me mesmo!)

Não acho normal uma pessoa ir sentar-se precisamente à frente da outra, quando tem dois lugares não nocivos onde sentar o rabo! É que sentar em frente tira o conforto e quebra a regra do espaço pessoal, porque volta e meia lá os pés ou joelhos têm de embaraçosamente tocar-se. Não acho normal, faço logo cara de má e mudo-me a grunhir para o lugar do lado. Não sabe o Código Secreto, aprenda-o com a experiência! Isto para dizer que, se por acaso são o passageiro que tem de ir importunar o Reino dos 4 Assentos, o lugar ideal para sentar é o lugar cruzado ao de quem já lá está (nem à frente, nem ao lado), mas também se aceita o lugar ao lado - mais uma vez, o Código é compassivo e percebe que há pessoas que enjoam de costas.

E tristemente só me lembro destas regras do Código Secreto. Já repararam em mais alguma?

MJNuts

10 comments:

Duriel said...

Post muito giro!

Nos autocarros, geralmente noto que as pessoas não se sentam à janela para não ficarem "trancadas" quando vier outra pessoa e sentar-se ao lado.

O código secreto das casas de banho masculinas:
http://www.youtube.com/watch?v=IzO1mCAVyMw

André Godinho said...

Concordo absolutamente com todas estas regras. Até sou menos tolerante em relação aos lugares no comboio. É sempre no lugar cruzado. Sem excepção.

Ainda há outra que me tira do sério. Entradas e saídas das carruagens. Será que as pessoas não sabem que se bloquearem a saída, ninguém sai nem elas entram? É terrível...

Morcegos no Sótão said...

Ah, eu sabia dessa dos autocarros, queria falar dela e esqueci-me! :/

Essa das entradas e saídas, parece-me a mim que as pessoas, na sua maioria e FELIZMENTE, cumprem sem grande problma.

MJNuts

Blaze said...

Basicamente é um rant contra as pessoas que violam o teu espaço.
Seja no autocarro, metro, estações e numa sala de aula? Para a próxima não me sento perto de ti :P

Anyway, acho a cena dos cotovelos na mesa é ridícula, nunca percebi!

Pintas nos Olhos said...

LOLOLOL "o Código é compassivo e percebe que há pessoas que enjoam de costas." ---> mataste-me com esta.

Ricardo said...

Hoje ia nas escadas rolantes do metro e reparei que há muita gente que sobe as escadas (ou desce, dependendo das situações) por si mesmo e depois quando vão a sair param meio metro antes mesmo no meio das escadas; ficam aqueles segundinhos parados a entupir o trânsito porque têm medo de sair em movimento. Isso irrita-me xD

neuróglia said...

as regras das BICHAS:
- forme sempre bicha única
- não adormeça, mantenha-se atento e não abra buracos na bicha
- se alguém passa à frente reclame, envergonhando-a com os restantes elementos da bicha mas primeiro confirme se é grávida ou se está a esvair em sangue
- facilite o atendimento, ou será intimidada por quantos olhos, suspiros, respirações, aproximações e quiçá perdigotos houver
- aguarde a sua vez de forma contemplativa, bastará um momento para ser enganada
- alguém na bicha pede licença, apenas para pedir informações, diga que também as procura e está a aguardar e não lhe dê a sua vez (ou todos atrás de si o odiarão e sentar-se-ão à sua frente no metro)
- abre um novo posto de atendimento, MANTENHA a bicha única e avance conforme o posto estiver vago
- não reclame com quem o atende, escreva no livro e saia da bicha simultaneamente
- por favor, não se peide, não podemos sair da bicha

Alice Dias de Guerra said...

Olá Maria! Adorei isto, tenho de comentar :)

Em relação à regra dos 4 assentos, por acaso prefiro 1000 vezes que se sentem a minha frente do que ao meu lado. É insuportável o bracinho da pessoa desconhecida a tocar no meu bracinho...

Em relação às filas, não suporto quando a pessoa que está atrás de mim se encosta, como se ao deixar 20 ou 30 cm alguém se fosse lá meter.

Mas o PIOR são as criaturas que:
1) mascam pastilha "em voz alta"
2) põem música para toda a gente ouvir (incluindo as vezes com phones)
3) falam alto ao telemóvel, como se todos estivessemos interessados nos dramas das suas vidas

(Espero que esteja a correr bem a vida em Londres! Beijinhos)
Renata

Morcegos no Sótão said...

A vida em Londres vai óptima, mas agora estou em Lisboa!=)

Eu prefiro que os braços se toquem do que a pernas se toquem... Mas pronto, no Verão é chato porque é pele a tocar em pele e isso já é demais. lol

E não suporto música alta nos transportes públicos! -.-

MJNuts

Guess said...

O Reino dos 4 Assentos é muito bom. Eu, nos comboios, já para evitar isso, meto as minhas tralhas no assento ao lado do meu e os pés sobre o assento à minha frente :P se vem alguém, eu simulo um gesto de boa educação que dá a entender que vou retirar os impedimentos que coloquei à pessoa que se quer sentar, mas ela procura logo outro lugar, para não incomodar.

cá no meu reino ninguém incomoda. e eu quero ler. não quero ouvir ninguém a tagarelar ao meu lado. até porque eu sou cusco e não vou conseguir desligar da conversa.