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Sunday, April 24, 2011

Mrs. Dalloway


She felt very young; at the same time unspeakably aged. She sliced like a knife through everything; at the same time was outside, looking on. She had a perpetual sense (…) of being out, out, far out at sea and alone; she always had the feeling that it was very, very dangerous to live even one day.

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf







Lili

Sunday, March 27, 2011

Falso ídolo


Que feitiço é este, o do enamoramento?
Onde vejo falhas, vê perfeição. Onde vejo horrores, vê salvação. Onde vejo mediocridade, vê excelência. Onde antevejo repulsa, sente desejo.
E que pena quebrá-lo. Que tragédia perder esse olhar, de inevitável precariedade, sobre mim. Não mais vai existir essa centelha a arder por mim lá fora, no mundo frio. Não mais haverá alguém a sonhar com um alguém que não vejo mas que em mim vê. Um olhar terno sobre mim. Sou tentada a alimentá-lo, a atiçar a constância desse fogo e banhar-me no calor projectado por essa imagem durante um pouco mais. Só mais um pouco.
Um toque. Um olhar. Um sorriso. E o banal sente-se como calculado. Natural e antecipado, miscigenados. As palavras saem-me vazias mas cheias de intento. E mexer-me sabendo que quem me olha contempla uma divindade e não mais um ser humano. E andar sabendo que olhos parciais me seguem e me apreciam e nos meus gestos vêem graça. Mel escorre dos meus dedos e a visão da minha língua atiça outra e formiga a pele. O meu riso ecoa e reverbera no oco de outra mente. Sou reverenciada. Idolatrada. Não quero mas sou querida. Não olho mas sou olhada. Não sinto mas sou sentida.
Que feitiço é este, cujo reflexo me enfeitiça também a mim? Encaro-me e, no mais fugaz dos instantes, vislumbro-a, a deusa. E também o meu olhar se cobre de brandura. Enfeitiço-me. Pondero amá-la. Pondero sê-la.

Lili

Monday, December 13, 2010

Espaço positivo


Sentada sobre as minhas pernas pondero a minha existência. A pressão da All Star nas minhas nádegas leva-me a contemplar o meu cadastro comportamental.
Das palmas dos meus pés chegam-me ecos já muito ténues de queixumes que denunciam o uso excessivo das botas de salto alto, no dia anterior. Informam o meu cérebro de que este constante alternar de alicerces é algo desagradável e que gostariam que a situação fosse, se possível, rectificada. Contentar-se-iam até com pequenas concessões da minha parte, quiçá evitar o transporte de objectos pesados enquanto sujeitas a esse tipo de calçado.
O meu gémeo direito informa-me, com uma sucessão de picadelas em crescendo, em jeito de código Morse, que estou prestes a perder uma parte substancial da sua funcionalidade. Não aprecio o tom condescendente, de quem já não vê utilidade em notificar-me pois vou simplesmente deixar-me estar e dar-me por surpresa quando, ao erguer-me, me vir subitamente perneta. A soberba do membro inferior!
O meu pé esquerdo, já desprovido há muito da sua prisão de pano e borracha, acaricia o chão num movimento pendular, agradecido pelo contacto gentil com a superfície fresca e polida. A maioria das partes do meu corpo, se sujeita a sufrágio universal, escolheria terapêutica de frio. O meu pescoço talvez discordasse. Nariz contra, com certeza. Sei que as coxas votariam em branco, para preservarem a sua modéstia. Evitam expor-se.
Que estava eu a dizer?
Contemplava a minha existência.
Um suspiro profundo e raspar de unhas no couro cabeludo, que invariavelmente se transforma num enlaçar de falanges pelo cabelo, traduzem a resposta do meu corpo a este recorrente exercício mental. “Inútil”.
Cala-te. Que sabes tu?
Os meus ombros e pescoço sabem que a minha postura é deplorável. Endireito-me. Sinto os seios a bater na mesa. De Inverno pesam-me. Arrumo-os sobre a mesa e esqueço as exigências vertebrais.
Apoio o cotovelo direito na mesa e a têmpora no carpo. Olho para o ecrã na diagonal.
Apoio o cotovelo esquerdo na mesa e o queixo no carpo. Olho para o ecrã de cima.
Mordo os lábios. Molho os lábios. Faço uma careta. Encarquilho a cara e agito o nariz. Bocejo de boca aberta e a língua sobe-me ao céu-da-boca. Visualizo a imagem vaga e modelo que o meu cérebro atribui a um gato. Sempre sou felina em qualquer coisa. Ou tornei-me? Sempre bocejei assim? Não me parece. Agora sempre bocejo assim.
Bocejo novamente, desta vez fecho também os olhos. Coço-os. Também eles se queixam. A única atenção que lhes dedico é agressiva e invasiva. Não apreciam as visitas perfuradoras dos meus dedos indelicados e das minhas unhas amoladas. Muito indignados, retrucam que apenas se manifestam por desleixo na minha higiene ocular. Eu sou a culpada das minhas maleitas. Já sei do que falam. Escarafuncho um pouco mais para os calar.
Mapeio o rosto. Sinto as suas protuberâncias e irritações. Oleosidade. A minha auto-estima projecta um mapa topográfico severo. Suspiro de desalento.
Contemplo a persistência da existência. A tenacidade do meu conjunto.
Levanto-me.

Lili

Sunday, November 28, 2010

Could I borrow your life manual? I seem to have misplaced mine...


I wanted to call you and hug you and tell you all about the most wonderful boy, the stupidest boy, that went and fell in love with me and how he doesn’t want to be friends anymore… But then I remembered that was you. And I remember I am me. And the encompassing darkness descends.


I’m sorrier than you’ll ever know.

Lili

Thursday, November 25, 2010

Hoje é um dos Muitos Dias

Há dias em que mais valia ficar na cama. Levantamo-nos de manhã para o xixi da praxe e estamos com má cara. Quando estamos a voltar à casa-de-banho para o banho, alguém já está a ocupá-la e temos as nossas coisas todas lá dentro. Não há na cozinha o que apetece comer. Saímos pela porta já atrasados e ainda perdemos o autocarro.

Mas também há dias em que tudo corre bem. Levantamo-nos de manhã depois dos vinte minutos de pré-acordar que o botão de snooze nos ofereceu e sorrimos para o nosso reflexo no espelho. A roupa que nos apetece usar está toda lavada e cheirosa e parece assentar mais perfeitamente que nunca. Não temos fome, mas a peça de fruta que escolhemos para não ficarmos de estômago vazio mais do que saber bem, é a ideal. Saímos pela porta já atrasados, mas conseguimos chegar dez minutos antes sem sequer percebermos como.

Hoje foi um desses dias. O mp3 presenteou-me com músicas que eu nem sabia que me apetecia ouvir. Percorri desorientadamente a zona do Saldanha em busca de uma entrevista de trabalho, na qual gostaram de mim, na qual me chamaram. Desci para Arroios até ao oculista, porque a minha armação já tem uma certa idade e chegou a andar de fita-cola, à Harry Potter. Os óculos já os tinha escolhido e eram mais giros do que eu me lembrava. Experimentei lentes de contacto pela primeira vez e foi uma aventura de pestanejares e lacrimejares. A minha cara estava tão perto do espelho que só me via a mim, mas achei-me linda. Mesmo com as rugas de expressão na testa e com as ruguinhas de sorrir nos cantos dos olhos. Linda, principalmente porque, quando sorrio, os olhos também se riem e a bochecha esquerda oferece uma covinha.

De lentes postas, cheia de comichões novas, subi até à Avenida de Berna, para voltar à faculdade onde acabei um curso, mas que foi muito menos minha do que a Ravara, dos tempos de Enfermagem. Enquanto esperava, resignadamente tirei o The Catcher in the Rye da mala para continuar a leitura e eis que um livro que até então pouco ou nada me dissera, de repente me atira com duas passagens de encher o olho.

Até que lá reencontrei os meus companheiros portugueses de Erasmus e muita conversa havia para pôr em dia. Foi óptimo vê-los, iguais mas diferentes, apaixonados e a sobreviver ao fim do amor. Foi bom lembrar Londres, a cidade que é também nossa. A cidade que, sempre que voltamos, parece que nunca abandonámos. Porque já sabemos de cór as formas mais rápidas de chegar onde quer que seja, porque já temos os nossos spots de eleição, porque estamos bem cientes daquilo com que podemos contar.

Foi fantástico estar sentada na esplanada amarela a ouvi-los e relembrar-me do porquê de fazerem parte da minha história. Relembrar-me que tomar café com eles vai sempre encher-me o peito de calor. Relembrar-me que gosto mais deles do que me ocorre na banalidade do quotidiano.

Soube bem reencontrar professores, perceber que eles ainda se lembram de mim, que gostam de mim. Descobrir novas coisas em comum.

Foi bom palmilhar o centro de Lisboa a pé, só porque sim. Porque faz bem, porque tenho tempo, porque tenho música.

Foi maravilhoso abafar o desejo por castanhas, porque não as há à mão, porque não me posso dar ao luxo de dispensar 2€, apenas para voltar a casa e apanhar a mãe a prepará-las para depois do jantar.

Foi agridoce ir à casa do meu Nabo, de visita a Lisboa, para me despedir dele e, apesar de custar sempre vê-lo partir, só pode ser amor o que me faz estar ali, na casa dele, na hora de dizer adeus às pessoas que mais lhe importam.

Houve várias coisas que faltaram no meu dia. Há pessoas que eram o mundo e que parecem estar a deixar de o ser. Mas hoje não é o dia para querer saber disso.

Hoje é o dia para me achar capaz de tudo. Hoje é o dia em que acredito, em que sei, que espere-me o que esperar, vou ter uma vida cheia. E, um dia, vou olhar para trás e chamar-lhe plena.


No regresso a casa, enquanto esperava pelo metro na estação do Saldanha, deparei-me com a célebre citação de Almada Negreiros na parede. Uma que já antes me prendera a atenção:

"As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca se acabam."

É isso que eu quero ser. Uma pessoa que nunca se acaba.

MJNuts

Wednesday, October 27, 2010

Singularidades

Há cerca de dois anos (um ano e meio?), numa das minhas noites cibernéticas, dei com um blog que me chamou logo a atenção. Gostei da forma como a autora escrevia, das pequenas histórias sobre a sua vida, do coração que ela lá punha. Gostei do tanto que ela tinha em comum comigo, que me faz tanta falta. Em cima de tudo isso, ela estava a viver em Londres e, há cerca de dois anos atrás, quem estava prestes a ir viver para Londres era eu, portanto agradava-me bastante a perspectiva de alguém como ela, uma portuguesa a viver fora pela primeira vez. Por isso adicionei-o aos meus favoritos e comecei a comentar regularmente. Ela, por sua vez, passou também a visitar o Tretas.

Ao ler um dos seus posts, certa vez, senti-me tão próxima do que ela estava a contar e ainda mais do que ela estava a esconder que não pude evitar deixar-lhe lá um simpático "Às vezes gostava de não ser uma simples comentadora do teu blog e ser mais próxima de ti (não me leves a mal), porque as tuas histórias contadas aos bocados e através de metáforas deixam-me uma sensação agridoce de curiosidade e preocupação...". Apeteceu-me. Se calhar é estranho, não tenho noção do protocolo social. Mas a verdade é que ela me mandou um mail, adicionámo-nos no MSN e assim começámos a conversar.

Sempre tivemos tendência para conversar longas horas sobre tudo e nada. Começou bem cedo. Não me lembro da primeira conversa, mas não teve aqueles horrores iniciais da horda do "tudo bem?" ou "então, que fazes?". Sei lá, fluiu a conversa. Nos dois sentidos, sempre. Ora ia eu falar, ora vinha ela.

Tornámo-nos amigas. Ou tão amigas quanto nunca ter estado ao vivo com uma pessoa pode permitir. Nunca vi a Isa (sem ser por fotografias) nem nunca lhe ouvi a voz, mas nestes meses todos que falámos, ela tornou-se importante para mim. Era uma espécie de meu diário, contava-lhe tudo até ao mais ínfimo pormenor. Fazia-me sempre sorrir nos dias em que estava mais em baixo.

Acima de tudo, a Isa era um exemplo. De coragem, de luta, de entrega. Soube assim que a conheci da sua grande história de amor, daquelas dignas de filme, com dramas e outras pessoas pelo meio e até funerais. Uma história de amor daquelas que vale uma vida inteira. A Isa não deixou de ser quem era e de fazer o que queria por amor, ela fez tudo. Mas simplesmente apercebeu-se que, para ela, o amor valia muito mais e correu atrás dele. E foi por isso que eu nunca a conheci pessoalmente: uma mera semana antes de eu chegar a Londres, ela estava a partir para NY para continuar a sua história de amor.

A Isa fazia-me acreditar no amor e na força dele. Fazia-me acreditar em mim, apesar da minha óbvia nabice no assunto. Contava-me as mais incríveis histórias de coisas que já lhe tinham acontecido. Gozava comigo quando era devido. Falávamos de cultura: séries, livros, filmes, música. Achava amorosa a tendência dela para grandes artistas mainstream, à la Madonna e Lady Gaga. Falávamos imenso sobre cusquices de celebridades, só porque tem piada. E ela falava-me de como é viver em NY e de como são os americanos no seu habitat natural. O que eu me ria com as desventuras que ela tinha no emprego...

E aquele amor imenso que me enchia de esperança...

A Isa era a receptora do mail que eu enviava quando não conseguia dormir porque tinha o peito cheio. Era a pessoa que me enviava mails a contar o que andava a fazer ou a enviar-me links parvos, porque nem sempre se tem vida para passar muito tempo no computador, apesar de, em média, falarmos uns 4 dias por semana.

A Isa "desapareceu" há 3 meses. Desde Julho que não sei nada dela. E isto é um pouco horrível, porque afinal como se pode saber de uma pessoa que nos é próxima apenas pela Internet se ela desapareceu da Internet? Eu sei que deve haver muita gente que não compreende e a quem isto não faz sentido, só que eu posso nunca ter dado um abraço à Isa, mas mostrei-lhe o meu coração. Ela era o melhor que eu podia tirar das horas passadas ao PC. Nunca falhava em deixar-me melhor, mais leve.

E não consigo perceber porque é que essa parte da minha vida cibernética desapareceu... E preocupo-me. Mando mails à falta de outra forma possível de contacto. Abro a inbox e é sempre uma desilusão não ver nada dela por lá. E às vezes questiono-me se ela existiu mesmo ou se a inventei, porque quem é que não tem Facebook hoje em dia? E depois acho que ela nunca desapareceria para todo o sempre sem me dar um aviso, mas ao mesmo tempo prefiro acreditar que ela está tão feliz e passou para uma fase tão melhor na sua vida que, ao passar para lá, não houve oportunidade para uma despedida. É sempre melhor pensar assim do que nas alternativas negras.

Mas tenho saudades dela. O pós-concerto da Lady Gaga vai perder um pouquinho da sua piada porque não vamos trocar impressões sobre as nossas experiências, a dela nos US, a minha cá. Queria mostrar-lhe a Florence e saber a opinião dela. Queria que ela soubesse o quanto cresci neste último ano e a importância que ela teve nesse processo. Queria que ela se orgulhasse da forma como me apercebi de padrões e os comecei a combater. Queria que ela me dissesse que estou errada, que não devia deixar o amor para segundo plano. Queria dizer-lhe que vi o primeiro episódio de The Good Wife e adorei. Queria que ela soltasse um dos seus discursos de bom humor exasperado devido à minha franqueza e aos meus acidentes de percurso. Queria ter mais debates animados sobre quem é gay ou deixa de ser. Queria que ela me mostrasse poemas e me citasse Jorge Amado. Queria mostrar-lhe coisas que sei que ela iria adorar e esperar pela reacção dela.

Acima de tudo isso, quero que ela esteja bem e feliz. Quero que ela esteja com quem ama.

Bolas, miúda, já o mereceste! Vê lá se estás a deitar a América abaixo com a tua fixeza, sim? Os americanos bem podiam aprender contigo.

Não me esqueço de ti.

MJNuts

Friday, October 15, 2010

A História do Canal

É incrivelmente idiota. Nós somos todos incrivelmente idiotas. O dia está chuvoso e nublado, a atmosfera carregada de humidade. Mesmo de ténis, o mármore é escorregadio. Mas lá descemos as escadas e aproximamo-nos cada vez mais do vértice do triângulo, sem qualquer noção do perigo.

Nunca quis saber da obsessão com as câmaras e as fotografias, mas alinho na brincadeira. É giro na altura de ver e recordar. Não estou em mim e olho à volta e para o céu como se fosse uma visão espantosa e impossivelmente nova. Nem ligo à ideia de pousar a máquina para lá da plataforma, depois da água.

Só associo quando uma mão me agarra e vejo o ar de pânico dele, já numa posição que invariavelmente indica que vai cair e não tem como se safar disso. Escusava era de me levar a mim também...

Sinto a força do embate na água ao longo de todo o comprimento do meu corpo e a chapa só não dói porque é Abril e ainda faz frio em Amesterdão e estou enterrada em camisolas e casacos.

Sinto uma onda de frustração abater-se sobre mim quando os meus olhos se abrem e só vejo aquela cor aguada e verdosa a rodear-me. Caí de barriga para baixo. Nem acredito que caí a um canal... A roupa pesa-me, o que não ajuda à irritação que já se instalou. Estou tão segura da estupidez do acontecimento que nem me lembro dele. Limito-me a esbracejar à cão até ao triângulo para voltar a terra firme. Mas o triângulo, falso, é uma plataforma flutuante e, sem onde apoiar os pés e demasiado pesada para me erguer decentemente, bato uma vez com a cabeça antes de me aperceber que vou precisar de mais esforço para conseguir sair dali. Mas estou segura, estou agarrada. Vejo-as lá em cima, petrificadas, estupefactas, também incrédulas com o que acabou de acontecer.

À minha direita, oiço de repente aquele som inconfundível de alguém a sair da água, numa inspiração ruidosa e sôfrega.

"A Maria! Agarrem a Maria!"

É a voz dele. Pois claro, ele também caiu. O grito aflitivo parece libertá-las do seu torpor, pois correm na minha direcção. Sinto-o a empurrar-me para cima como se a vida dele, não, como se a minha vida dependesse disso e, com elas a puxarem-me pelos braços, consigo encontrar uma posição que me permite sair sozinha de dentro de água, coisa que faço sem mais delongas. Fico parada, em pé, a pingar miseravelmente, e a fitá-las, sem dúvida que com a mesma expressão de descrença que lhes leio no rosto. Isto não está a acontecer.

Oiço-o sair da água atrás de mim, sozinho, sem precisar de ajuda. É impressionante a força que aquele rapaz tem. O pingar da água é ainda mais evidente nele do que em mim, talvez porque a ele posso vê-lo por completo, enquanto a minha visão de mim é sempre aquele olhar para baixo que nunca conseguirá ver a cabeça sem a ajuda de um espelho. Até do queixo a água lhe pinga, por alguns instantes.

Respiramos sonoramente durante uns segundos, sem encontrar palavras. Depois, eu não consigo evitar sorrir e por fim solto uma gargalhada. Foda-se, caí a um canal em Amesterdão!

A minha gargalhada provoca o riso também nelas e é como se a tensão do momento se desanuviasse um pouco. Verificamos as coisas que temos, completamente encharcadas. O telemóvel já se foi, assim como a máquina. O conteúdo da carteira talvez ainda se safe, depois de seco. Os objectos que estavam nos bolsos dos casacos flutuam agora ao longo do canal.

Ele começa a tremer. Lembro-me novamente que é Abril e ainda faz frio em Amesterdão. Temos de voltar para casa, que fica a 20 minutos dali, a pé. Elas insistem que vamos de trem, que assim podemos ficar doentes. Mas eu e ele sempre fomos forretas, além de teimosos, e Amesterdão, para nós, não é cidade onde se ande de transportes.

Pomo-nos a caminho, a um passo tão rápido que está muito próximo de ser corrida. Elas ficam para trás. Avançamos lado a lado e oiço a respiração ofegante dele tão claramente como oiço cada passo que ele dá. Trocamos algumas palavras.

Ainda não estou em mim.

Ele estende-me a mão. Aberta, grande, trémula. Eu agarro-a sem hesitar e é a partir desse momento que se nota que ele consegue andar bem mais depressa que eu. Vou sempre um pouco atrás, com ele a puxar-me, mas a minha mão presa na dele diz-me que vou onde ele for e que separados é que não vamos a lado nenhum.

Sinto o frio dele. Está a fazer uma força hercúlea para aguentar. Pergunto-me se, no meu estado normal, teria resistência suficiente para aguentar aquilo tudo. Quero acreditar que sim. Mas, no estado em que estou, não sinto frio nenhum, sinto só o desconforto da roupa molhada sob o corpo na húmida Amesterdão. As calças de ganga contra a pele parecem fazer-me cortes nas pernas a cada passada e isso permite-me saber que, tal como ele, e mesmo que sem frio, não aguentarei muito mais tempo.

Atravessamos as pontes sobre um e outro e mais outro canal. Parecem não acabar. Nunca um regresso me pareceu tão longo. Apesar de tudo, sinto-me bem. Estou viva e tenho-o ao meu lado. Nunca os edíficios da cidade me pareceram tão belos e familiares. O céu cinzento não é opressivo, é bonito. E, por uma vez, deixa-nos percorrer o nosso caminho debaixo dele sem nos cobrir de chuva. Será que faria diferença?

Andamos, andamos, andamos... Não me lembro de a casa ficar tão longe. Os meus sentidos começam a ficar desatentos e só me consigo concentrar na força com que as nossas mãos se apertam, na respiração pesada e regular dele, nos meus passos mecânicos, um atrás do outro. Ele tem os dentes cerrados, o olhar fixo. Não conseguiria falar mesmo que quisesse. Mas eu sou leve e ainda consigo.

"Estamos quase, só mais um bocadinho..."

Chegamos finalmente. Ele atrapalha-se a pôr a chave na porta. Treme, experimenta, está irritado, estamos quase! Conseguimos. E corremos escadas acima sem nos preocuparmos em descalçar. Só queremos o conforto e um banho quente.

Ouvimos os gritos da velha, mas já estamos na casa-de-banho a despir-nos e esta não é a altura para nos preocuparmos com ela e com as suas regras absurdas.

A água quente escorre-nos pelos corpos nus e até se vê vapor a soltar-se do gelo da nossa pele. Sorrimos, parvos, felizes, a adorarmo-nos assim, como somos. Vivos. Vibrantes.

Mas a velha bate à porta e grita, histérica. Só pode estar um de cada vez na casa-de-banho. E então ele sai, nu, frágil, pequeno.

Aquele que deveria ser o melhor banho das nossas vidas termina abruptamente da pior forma. Sozinha, sabendo-o ao frio, tomo o duche mais rápido que alguma vez me lembro de tomar.

Oiço-o lá fora, do outro lado da porta, a tentar explicar a situação. Antes de sair, olho-me ao espelho e sorrio. Poesia.

Aconteceram mais coisas, muitas mais, ao canal associadas. Mas isto é o que escolho recordar, porque até ao momento em que fiquei seca, ele amou-me duas vezes: tirou-me do canal primeiro pensando que eu corria perigo quando ele até estivera em maior risco; e deixou-me na banheira ante as ameaças da velha, para terminar o banho primeiro, quando ele tinha estado com mais frio que eu.

E por isso eu posso ser mais alerta e até mais disponível no dia-a-dia e volta e meia ressentir-me porque precisava de um pouco mais de atenção, mas é impossível esquecer-me da certeza de um amor que sabe o que vale e que vai até ao fim.

Damos igualmente, cada um à sua maneira.

Devo-te muito de quem sou. E amo-te.

MJNuts


Que possamos partilhar novas aventuras nos teus 21.

Monday, October 11, 2010

Becoming


Será que ainda vou a tempo? Será que ainda vou a tempo de ser o meu melhor Eu? O meu Eu mais Eu? Será que ainda consigo libertar-me da languidez e erguer-me das areias movediças do marasmo? Vinte e quatros anos e todos os dias descubro mais caminho a trilhar, mais noções inesperadas, mais barro a trabalhar em mim… Como uma casa para sempre inacabada, em constante renovação, os meus quartos expandem-se e mirram, encontro espelhos em corredores que não sabiam que existiam, clarabóias e lareiras em barracões, abismos entre o soalho de madeira que jurava ter consertado.

Sou fonte de energia em bruto que não sei converter em movimento, em expansão, em evolução. Não sei como queimar o meu carvão, iniciar a minha revolução industrial. Queimo por dentro, consumindo as paredes dessa casa, com a certeza de que caminho inexoravelmente para o meu fim, para a minha supernova. E mirro, como papel a queimar, colapso sobre mim mesma e desapareço. E é tanto (mas tão pouco!) para ver, para conhecer, para ser. E o meu lado mesquinho conquista-me e as minhas inseguranças impedem-me de ser mais eu. Fico presa nesta crisálida, nem verme nem ser alado. Disforme. A meio. Inacabada. Não realizada.

A minha casa é uma prisão. Sou presidiário, guarda, grade. Chave! Mas onde anda ela? Tantas são as gavetas, as portas, os armários! Já para não falar na cave…

E é o fluxo constante de dor. Alicerces da minha existência, que enquanto expostos, sem estuque ou cimento que os proteja, estão constantemente à mercê das intempéries, do alheio, do acaso, dos outros e do seu intento destrutivo… ou boas intenções.

Seria mais fácil com um construtor dedicado? Uns dias penso que sim, outros dias grito que a alvura das minhas paredes só a mim me cabe erguer, para que, aí sim, outro entre elas possa encontrar conforto e, enroscado em frente à lareira, atiçar o meu aconchego, aquecer a minha casa, com lenha de árvores exóticas, à qual vou estranhar o sabor.


Lili