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Sunday, April 24, 2011

Mrs. Dalloway


She felt very young; at the same time unspeakably aged. She sliced like a knife through everything; at the same time was outside, looking on. She had a perpetual sense (…) of being out, out, far out at sea and alone; she always had the feeling that it was very, very dangerous to live even one day.

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf







Lili

Friday, September 17, 2010

A História Interminável

Eu suponho que não deveria, não quando já li nomes como Tolstoi, Wilde, Orwell ou o nosso Eça, mas A História Interminável, de Michael Ende, é o meu livro preferido. Não tem a ver com o brilhantismo da narrativa ou a inteligência do enredo, tem a ver com o que me faz sentir. Há quem o considere um livro para crianças, mas para mim é muito mais que isso. Permite a um leitor adulto relembrar as suas sensações de infância ao mesmo tempo que se apercebe da complexa metáfora sobre o mundo actual, sobre a tristeza e desencanto em que a sociedade caiu.
Quando o li pela primeira vez, no Verão dos meus 16 anos, não consegui parar. Fiquei a ler até a luz do Sol raiar e fui dormir com uma sensação profética no peito. Lembro-me perfeitamente de estar leve, apesar de cansada, de sorrir antes de deitar a cabeça na almofada, de sentir que tinha acabado de absorver uma grande lição de vida.

Agora que finalmente, 8 anos depois, o voltei a reler, já com olhos mais críticos, percebi que a tradução da obra não é a melhor. Não que eu saiba alemão e tenha tido acesso ao original, nada disso. Mas quando há erros ortográficos e de pontuação, uma pessoa desconfia. A minha memória selectiva encarregou-se de apagar esse pequeno pormenor. Felizmente, não estragou em nada a minha experiência.

"Faz o que quiseres" é o mote da história. Uma expressão que pode ser interpretada de tantas formas diferentes... E é isso que Bastian, o protagonista, tem de aprender ao longo da sua jornada. Nunca na minha vida li nada, fosse conto ou livro de mil páginas, que ilustrasse tão bem o percurso de uma viagem de crescimento interior... Acho que, acima de todas as outras coisas deliciosas, da imaginação delirante, das narrativas paralelas e/ou entrelaçadas, das imagens sublimemente descritas, o que mais me prende à História Interminável é precisamente a viagem interior.

Há tantas passagens que reflectem as nossas perspectivas sobre a Vida ao longo de toda a nossa existência...

"- Ouve lá - gorgolejou Morla, - nós somos velhas, pequeno, velhas demais. Já vivemos bastante. Já vimos muito. Para quem sabe tanto como nós, nada é importante. Tudo se repete eternamente, dia e noite, Verão e Inverno; o mundo está vazio e não tem significado. Tudo se move em círculos. O que aparece tem de desaparecer, o que nasce tem de morrer. Tudo passa, o bem e o mal, o estúpido e o inteligente, o belo e o feio. Tudo é vazio. Nada é real. Nada é importante."

"- Só podes descobrir os caminhos de Fantasia - disse Graograman - através dos teus desejos. E só podes ir de um desejo para outro. Aquilo que não desejas é inatingível para ti. É esse o significado das palavras perto e longe neste lugar. E também não basta quereres ir-te embora de um lugar. Tens de querer ir para outro. Tens de deixar que os teus desejos te conduzam."

"Mas como todas as verdadeiras transformações, esta processava-se também lenta e silenciosamente, por si própria, como o crescimento de uma planta."

Ah, pudera eu expressar convenientemente a força desta obra...

MJNuts

Tuesday, March 30, 2010

The Lesson of the Moth

i was talking to a moth
the other evening
he was trying to break into
an electric light bulb
and fry himself on the wires

why do you fellows
pull this stunt i asked him
because it is the conventional
thing for moths or why
if that had been an uncovered
candle instead of an electric
light bulb you would
now be a small unsightly cinder
have you no sense

plenty of it he answered
but at times we get tired
of using it
we get bored with the routine
and crave beauty
and excitement
fire is beautiful
and we know that if we get
too close it will kill us
but what does that matter
it is better to be happy
for a moment
and be burned up with beauty
than to live a long time
and be bored all the while
so we wad all our life up
into one little roll
and then we shoot the roll
that is what life is for
it is better to be a part of beauty
for one instant and then cease to
exist than to exist forever
and never be a part of beauty
our attitude toward life
is come easy go easy
we are like human beings
used to be before they became
too civilized to enjoy themselves

and before i could argue him
out of his philosophy
he went and immolated himself
on a patent cigar lighter
i do not agree with him
myself i would rather have
half the happiness and twice
the longevity

but at the same time i wish
there was something i wanted
as badly as he wanted to fry himself


By Don Marquis, in "archy and mehitabel," 1927

Wednesday, March 3, 2010

(Poemas de Deus e do Diabo)

Cântico Negro - José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!



Poema e vídeo que ela me mostrou e que são, afinal, tão cruamente eu... Obrigada.

MJNuts

Wednesday, August 5, 2009

A Insustentável Leveza do Ser

Milan Kundera faz-nos mergulhar na humanidade que somos todos nós...

"O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher)."

"Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis."

"Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida."

MJNuts (in great need of truly sleeping)

Saturday, January 17, 2009

O Implacável Magnata e a Sua Amante Grávida Teriam um Casamento… Por Conveniência!

O que é girl porn? Como fazer girl porn? Qual o segredo da Stephenie Meyer? O que raio é o Crepúsculo? Quem é que faz estas perguntas?

A girl porn gosta muito de metáforas e adjectivos. A melhor maneira de reconhecer girl porn é através do sem número de adjectivos e metáforas utilizados para descrever o protagonista masculino. Não só vão ser muitos, como vão ser repetidos tantas vezes que vamos chegar a perguntar-nos se a autora não sofrerá de deficit de atenção ou de amnésia. É o cabelo que é da cor do ébano e com textura de veludo, 87 vezes. É o peito que é muscular e duro, 143 vezes. É a pele que tem o toque suave de caxemira, 23 vezes. São as mãos que são rijas e grandes mas suaves como a seda, 352 vezes. E por aí adiante. Tão adiante, que após 200 páginas disto torna-se difícil lembrarmo-nos do que quer que seja além da quantidade de vezes que tecidos são usados para descrever partes do corpo. E quanto à personalidade? Who cares! O peito dele é musculado e duro mas suave como cetim!

Outra das características de girl porn é a subtil ameaça que o protagonista representa para a protagonista. Entre inúmeros adjectivos e metáforas sobre o aspecto físico do homem, vai sempre haver aquela metáfora fulcral (também essa a ser repetida 1356 vezes) que informa a leitora que o gajo é tão forte, tão forte, tão forte que podia partir a protagonista ao meio, se quisesse. Mas ele não quer, porque ele é um fixe.

Ora esta mensagem é A Mensagem (não que o Fernando Pessoa tocasse nisto com um pau de 100 metros). É isto que é girl porn, meus senhores e minhas senhoras. O domínio físico sobre a mulher. Seja ele subtil ou óbvio, é isto que põe as jovenzinhas e as senhoras de meia-idade todas malucas!

No entanto, é opcional (a não ser que estejam a escrever, por exemplo, uma Júlia ou uma Sabrina. E que lindas capas!) a cena da “quase violação”. Vocês sabem de qual eu estou a falar. A tal. Aquela. A fantasia sexual mais apreciada. Essa mesma. “Ai não, não, não! Ai sim sim sim sim!” Não se façam de desentendidos, que eu estou a ver-vos.

Assim sendo, eu divido a girl porn em dois tipos: Softcore e Hardcore. Sei que são as mesmas categorias de pornografia “normal” mas não confundam. A mais hardcore das girl porns não chega nem de longe, nem de perto às badalhoquices da pornografia “normal”.
Ora e qual é a diferença entre estes dois tipos de er… literatura (ai, que me ia engasgando), perguntam vocês. Vocês são muito perguntadeiros, já sei. Ora as diferenças são as seguintes: o número de páginas que têm de percorrer até haver sexo e o sexo em si.

Em hardcore, o número de páginas que se tem de percorrer até as personagens principais terem sexo é o equivalente a, num filme, dentro de 15 minutos toda a gente ficar nua. Há ali uma certa tensão sexual, sim senhor, mas não é coisa que dure muito tempo. Vai-se logo direitinho ao que é bom, que os problemas vêm é depois, entre inúmeras sessões de sexo. O sexo é bastante descritivo, sendo que uns autores (ou deverei dizer autoras) preferem ser mais descritivos que outros em certas e determinadas coisas. A uns parece-lhes bem dizer “pila” tal e qual e a outros soa-lhes melhor coisas como "bainha de veludo" ou "membro palpitante". Não temam! A girl porn gosta quando a foleirice encontra a badalhoquice.

Em softcore, o número de páginas que têm de ler até chegarem ao bem bom vai além do que vocês gostariam e o sexo em si muitas vezes é daqueles em que se metem na cama e depois fica tudo escuro, como nos filmes. No entanto, apesar de vocês se sentirem frustrados (ou melhor, frustradas) a ler aquilo, não sabem que a razão pela qual estão a gostar tanto do livro é precisamente a falta de sexo e não a abundância dele. É na tensão sexual que reside o trunfo da girl porn softcore. É pelos “tomates” que a Stephenie Meyer vos apanha. Não é por ela ser mórmon que eles não fazem sexo, é porque arruinava imediatamente o livro para todas as adolescentes borbulhentas a lê-lo. Sexo é sobrestimado. Sexo é para quem PODE fazê-lo. Para quem não pode, tensão sexual é muito melhor porque é aquilo que sentem todos os dias! É também esse o segredo para se escrever boa girl porn, não se andar a TER boa girl porn. É isso mesmo. Girl porn é escrita por quem não faz sexo para quem não anda a fazer sexo.

Ora aí entra a Stephenie Meyer e o seu Crepúsculo e todos os outros livros com nomes de fenómenos meteorológicos que ela expeliu. O que esta marota fez foi escrever a sua fantasia sexual e mandá-la imprimir e subitamente todo um monstro de hormonas foi despertado e alimentado pela mesma. Mas qual o segredo dela? Aquilo é a pior literatura cujo nascimento o mundo testemunhou nos últimos cinquenta anos e, no entanto, a gorda anda a rolar em dinheiro. Será só aquilo que eu mencionei ou algo mais? Serão os vampiros vegetarianos que brilham como diamantes? Serão os partos à Alien? Se houver algum fã da saga Crepúsculo a ler-me faça o favor de me elucidar! Até agora o que mais me elucidou foi uma gaiata no Curto Circuito, da SIC Radical, que resumiu o filme, baseado no livro, do seguinte modo: “É um vampiro que se apaixona por uma rapariga normal e o filme é todo assim”. Sim. Mais de 500 páginas de “todo assim.” Eles andem aí e brilham.

Lili

Saturday, November 15, 2008

Fingersmith - o Livro e o Resto

Escrevo este post mais para mim, porque preciso de o escrever, e na verdade quase desejo que ninguém o leia. Por isso vou, logo após o acabar, juntar mais uma compilação de postais e deixar que seja isso o que as pessoas vejam primeiro quando carregam no link deste blog.

Escrevo-o sem querer que o leiam porque Fingersmith, livro e minissérie/filme, foi para mim uma experiência e não quero que a vossa experiência seja arruinada pelos pormenores que não vou poder deixar de referir, pelas revelações de twists a que não posso fugir se me quero fazer entender...

E então aviso... SPOILERS vão estar por todo o lado, porque eu tenho simplesmente de deitar Fingersmith cá para fora... Se há algures na vossa mente a possibilidade de alguma vez verem o filme ou lerem o livro, escusam de gastar a visão através das restantes linhas. Pelo menos por ora. Até porque se não leram o livro ou viram o filme, não vão perceber nada, parece-me.

Disse aqui que provavelmente ainda havia muito deslumbramento no meu discurso. Mas desde então duas ou três semanas passaram e não é poucas vezes que dou comigo a pensar na Sue Trinder ou na Maud Lilly e em como foi aquilo acontecer-lhes... Foram tantas as vezes, que mandei vir o DVD da Amazon... Tantas as vezes, que tive de mandar vir o livro também. Tantas as vezes, que acabei por desesperar na espera e encontrar o .pdf da obra algures na net e foi assim que comecei a leitura.


É um bom livro. Não é perfeito, mas é realmente bom, tanto que foi nomeado para dois importantes prémios da Literatura internacional (o Orange Prize e o Man Booker Prize) e ganhou um outro (CWA Ellis Peters Dagger).

Tal como a sua adaptação, começa a um ritmo agradável e moderado, embora irresistível, mas acaba por precipitar-se para o seu final. Isto acaba por ser menos notório no livro, pois apesar da acção se desencadear de forma quase sedenta a partir de certo ponto, as palavras serão sempre palavras e são lentas na sua essência. Descrevem, expõem, dão-nos a entender coisas que nem sempre são subtis às imagens.

Ao contrário da sua adaptação, o livro pode trazer um certo desespero ao leitor. Porque não é no tempo real da acção. Ou antes, às vezes é, mas volta para trás para depois avançar novamente. Sarah Waters apresenta-nos dois pontos de vista e, como tal, temos de saber ambas as versões da história. E se começamos com a infância de Sue e acabamos a Primeira Parte com o doloroso reconhecimento de que ela afinal era apenas uma peça no jogo traiçoeiro de Gentleman... Passamos logo a seguir para longas páginas da infância de Maud e dos seus pensamentos sobre toda a acção anterior, antes contada pelos olhos de Sue. Confesso-me leitora muito impaciente, por isso até calhou bem ter visto primeiro o filme, senão todas as páginas do ponto de vista de Maud - belíssimas, por sinal, cheias de subtileza, de ódio, de desejo, de requintes de malvadez, de altruísmo inesperado, - me teriam passado ao lado na angústia de querer saber o que está a seguir, não o que já sabia.

O filme não tem este problema. Como já todos sabemos, estas coisas de andar para trás e para a frente podem dificultar a vida a argumentistas, realizadores, actores, espectadores, é uma dor de cabeça! Assim, a partir do momento oportuno, as perspectivas de Maud e Sue são mostradas mano a mano. O que uma está a viver enquanto a outra está a viver qualquer outra coisa.

O livro não tem as interpretações fabulosas de Elaine Cassidy enquanto Maud Lilly e de Sally Hawkins como Sue. Não tem a beleza irresistível de Rupert Evans no papel de Gentleman. Mas bem, teve-me a mim a imaginá-los nas palavras escritas, o que não é dizer pouco.

Há cerca de 3 semanas atrás, quando vi o filme, gostei imenso da Sue, adorei a Maud. Hoje, adoro a Sue e a Maud desperta em mim vários sentimentos, deixa-me pensativa em muitos aspectos. As pessoas têm sempre tendência a preferir a Sue, do que me apercebi de quem consegui convencer a ver o filme (obrigada!), mas sinto que a forma como a Maud foi escrita para a adaptação da BBC não é fidedigna. Paradoxalmente, tenho a certeza que as pessoas iriam preteri-la ainda mais se ela tivesse sido retratada tal como é no livro.

Porque a Maud, independentemente do magnífico trabalho de Elaine Cassidy na adaptação (e sim, eu reparei em gestos quase imperceptíveis que talvez tenham passado despercebidos a muita gente), vive de subtilezas tão ténues que uma pessoa quase tem de reler aquelas linhas para se certificar que entendeu bem. Porque a Maud no livro não é apenas uma pobre coitada que um tio devasso condenou a uma vida limitada de prisão domiciliária. A Maud da obra de Sarah Waters revoltou-se com a sua situação e criou as suas próprias defesas. Ela não chora a morte da mãe... Ela culpa-a por ter morrido e a ter deixado com aquele destino miserável! Ela não é dócil nem doce nem se meteu num esquema tão complicado, apenas porque quer fugir e no processo só uma pessoa insignificante (a Sue, it turns out) é sacrificada. Não, ela cresceu a odiar as pessoas que a fazem lembrar dela, a provocar e mal tratar as aias. Ela cresceu na repressão de afastar de si as palavras perversas dos livros do tio, que lhe foram apresentadas aos 12 anos.

A Maud não é boazinha nem fofinha nem tem qualquer pretensão a vítima das suas circunstâncias de vida. Quando a dura realidade das consequências da sua fuga de Briar a assola, sim, ela é uma vítima. Mas até aí, não.

"Pigeon, my arse."

Esta personagem fascina-me. Nada nela é o que aparenta ser: a inocência, a delicadeza, a bondade... E depois afinal, ela tem gestos, pensamentos, toma atitudes... Que me surpreendem. Que a fazem exceder-se a si própria. Que apenas a tornam tão melhor do que ela própria se julga.

Acho de uma delícia quase amarga que seja a Sue, a fofa e adorável, que nunca tenha tido a coragem ou a vontade de inverter o seu destino e, em paralelo com o seu, o de Maud. A Maud pensou nisso, quase tentou, mas foi Sue que, inconscientemente, não lho permitiu. Acho bonito que Maud tenha tentado salvar Sue de uma dor imensa, da dor de se saber traída por alguém que considerava mãe... Enquanto Sue, por seu lado, preferiu trair a Maud e orgulhar a mãe que acabou a abandoná-la...

Muitos amores trocados, não é?

Não há propriamente bons ou maus por aqui. Embora Gentleman na sua vilania se aproxime muito disso e se chegue a um ponto em que nós, tal como Maud ou Sue, temos um certo receio das ideias que irão sair daquela cabeça e quase nos encolhemos quando ele aparece. O personagem está muito bem construído. Rupert Evans é muito bonito, é sim senhor, sabe Deus que eu o apreciei muito sorridente várias vezes enquanto ele seduzia a Maud ou admoestava a Sue... Mas efectivamente não esteve à altura do personagem que lhe coube em mãos. O Gentleman de Evans tem o seu quê de nojentinho, não o nego, mas não é asqueroso no sentido de provocar medo, de quase lhe desejarmos a morte.

Devia falar da Sue? Não há muito a dizer. A Sue é de facto adorável. Na sua simplicidade, tem um fundo bom. Na sua simplicidade, tem uma lealdade imensa às pessoas que a criaram e com quem viveu toda a vida, lealdade essa que acaba por não a colocar na melhor das situações. Sim, ela afeiçoa-se a Maud e sim, por momentos, deseja salvá-la do seu destino horrível. Mas é um desejo passageiro, que ela prefere ignorar. Como pessoa simples, Sue é também cobarde e acaba vítima da sua cobardia. Da mesma forma que Maud acaba vítima do ressentimento ante a vergonha de Sue.

Que tem Fingersmith de especial? Não sei. Bateu-me fundo, porque é muito humano, mesmo que a sua humanidade seja invulgar. E, como tudo o que é humano, atinge-me em pontos que eu nem sabia que tinha. Não consigo deixar de pensar nos inúmeros detalhes que poderiam ter feito com que a história tivesse outro rumo, caso Sue ou Maud assim o quisessem. As incontáveis vezes em que palavras ficaram por dizer e as acções por fazer... Sim, é um livro, logo não havia volta a dar que já tinham o destino traçado. But still... It was all pretty real to me. Era algo muito próximo de mim. Do que sinto e não sinto, do que gostava de sentir.

Gostava que o filme tivesse mantido certos pormenores que me comoveram no livro. Como o facto de o nome Maud ser sagrado para a Sue e só o ter pronunciado quando já não havia impedimentos. No filme, a dada altura, a Sue deixa para lá a sua condição de aia e é Maud para aqui, Maud para ali. Também achei bonito como no livro se revelou lentamente o modo como a vida de Maud se alterou com a chegada de Sue. Ela era fechada, não estava habituada ao contacto humano. Não havia ternura ou sequer o toque na sua existência. A Sue chega e é divertida e despreocupada e está habituada ao toque como algo normal, que faz com toda a gente. Da primeira vez que a Sue tenta fazer o gesto básico de dar o braço, como duas amigas normais fazem, a Maud retrai-se, quase treme. E a Sue tem de ir conquistando o direito a um tipo de toque tão simples que o vemos diariamente em montes de gente no meio da rua... No filme, aquilo ao segundo dia já é abraços e é uma festa e até é a Maud que toma a iniciativa...

Enfim, pequenos pormenores. Já estou a falar demais, não já? E não disse nada de jeito... Talvez um dia releia isto e escreva mais e mais, tudo o que hoje me esqueci.

MJNuts

Wednesday, August 1, 2007

Harry Potter and the Deathly Hallows

Regressada da minha curta ausência antes de partir para a próxima curta ausência, tive o tempo e a oportunidade (entre os outros dois caramelos que me obrigavam a ler à vez e capítulo a capítulo) de finalmente ler o último livro da saga de Harry Potter. Sim, porque o Harry Potter é para se ler depressa, senão quando damos por nós já há spoilers por todo o lado!

Por isso, vou já começar por deixar um gigantesco aviso de spoilers para não lixar a leitura a ninguém!

SPOILERS - quem não quer ficar fulo da vida com a minha pessoa por saber coisas a mais da conta, mantenha-se longe!

Eu, como muita gente por aí, já há alguns livros que leio o Harry Potter, porque pronto, a dada altura a gente já só continua a ler porque quer saber como vai acabar. E como a saga da J.K. Rowling até tem qualidade de sobra para uma pessoa não se chatear e já nem do final querer saber, eu mantive a minha fidelidade.

Impressão geral: um bom livro, mas não excelente. O melhor de Harry Potter and the Deathly Hallows está a uma distância considerável do melhor de Harry Potter and the Prisoner of Azkaban ou o melhor de Harry Potter and the Half-Blood Prince (um livro algo mediano dentro da saga, mas cujos melhores momentos são efectivamente magníficos).

Em relação à plot... Previsivelmente, dado o fim do livro anterior, seria de se esperar que a metade inicial deste fim de saga fosse um tédio descomunal. Ok, tédio descomunal é capaz de ser um termo excessivo, mas a 1ª metade deste Deathly Hallows é sem dúvida morna e até um pouco desinteressante, ao estilo da 1ª metade de Harry Potter and the Order of the Phoenix. Além disso, na 1ª metade do livro, levamos com uma Hermione a chorar no mínimo uma vez por capítulo, o que é sinceramente irritante. Não era assim que eu me lembrava dela e eis que aqui temos mais uma excelente forma, a par da relação com o Ron (milagrosamente melhorado e amadurecido no livro só para o efeito), de me fazer tirar a Hermione do meu Top de personagens preferidas do Harry Potter.

Já toda a gente sabia que o livro seria sobre a busca dos Horcruxes, por isso toda a gente previa que o título teria a ver com isso. Diz que parece que afinal não senhora. Os Deathly Hallows são mesmo a grande surpresa do livro, surgidos de uma daquelas realidades obscuras que muitos julgam conto ou mito, mas que tem fundo de verdade. Tal como os Horcruxes, são objectos que podem ajudar a eliminar o Voldemort e aos quais J.K. dá um misticismo que nos fascina e nos faz querer saber mais. Dumbledore plantou as pistas de forma ao Harry poder escolher a alternativa que lhe parecesse melhor. Isto, embora infinitamente bonito e wowww e whatever, traz duas coisas que me chatearam o suficiente: 1º, a exaltação suprema do Harry como mega-herói, selfless (não me ocorre nenhum equivalente português, desculpem), tãaaaaoooo melhor que todas as outras pessoas do Mundo, inclusive muito à frente do Dumbledore (LOL); 2º, com dois lados para onde se virar, J.K. descurou tanto Horcruxes como Hallows e fica a sensação que podíamos saber mais e melhor sobre ambos. No caso dos Hallows, isto é evidente, porque surgem de modo algo aleatório e quando damos por nós já toda a gente mandou um bitaite conveniente que nos informa sobre a questão de forma um pouco deficitária. No caso dos Horcruxes, a coisa passou-se de outro modo. O 6º livro tinha-nos dado muita informação, e sólida, sobre o assunto, neste 7º tudo o que havia a fazer era encontrá-los e destruí-los. E é isto que leva ao secão da 1ª metade do livro, porque ninguém sabia onde os encontrar ou o que fazer com eles, então vão arrastando o tempo com conversa de chacha e dúvidas existenciais. Quando de repente sabem o que há a saber, é um frenesim que nem se percebe de onde apareceu aquilo. Os bitaites convenientes e aleatórios, lá está.

O Voldemort surge aqui mais parvónio e desesperado que em livros anteriores. Eu custa-me a acreditar que um homem que chega a tamanho ponto de poder e semi-omnipotência seja tão imbecil. Sim, sim, o amor e tal e ele não entende, mas pelo amor de Deus! Um Senhor do Mal um bocadinho mais inteligente teria protegido não só a Nagini, mas o penúltimo Horcrux também. Além disso, aquela obsessão dele com o Harry é doentia e só lhe trouxe dissabores. Se ficasse sossegado na sua demanda pelo controlo do Mundo escusava de se ter chateado com putos imberbes e literariamente despenteados (só literariamente, porque cinematograficamente o gel não faz efeito no Daniel Radcliffe). O Harry tem a importância que o Voldemort lhe deu, tão simples quanto isso. Eu que até o achava um senhor bastante cool e tal, com uma certa pose... Bah, esquece lá isso.

Uma coisa que gostei bastante no Deathly Hallows foi a forma como todos, ou quase todos, os personagens que foram surgindo em pequenas aparições ao longo da saga tiveram o seu papel, nem que fosse para morrer! Ou então surgia o seu nome só assim num parágrafozito para fazer o jeito. Gostei de os rever, já nem me lembrava de alguns. Faltou a Murta Queixosa! Mas apareceu uma fantasma porreirita para compensar.

Falando agora do que mais me interessa no Harry Potter, ou seja, as personagens. Já falei do Voldemort, mas é só porque esse é caso flagrante.

Em relação aos nossos 3 estarolas, o que posso eu dizer? A Hermione desiludiu-me. Mesmo. Foi uma sombra do que eu me lembrava dela ser (para aí 2 ideias de génio em 600 e tal páginas), para não falar da choradeira digna de desidratação. Já era uma gag recorrente lá em casa entre o grupo, cada vez que alguém dava pelo choro da Hermione, tratava de ler a passagem para o gozo ser geral. Se pensar bem no assunto, este descambar da Hermione era algo previsível e tem-se vindo a notar desde o 5º, com maior incidência no 6º, o afamado book of the snogging, em que de repente as hormonas estalaram e toda a gente comia toda a gente. E enfim, foi a Hermione que se viu. O Ron foi basicamente a 1ª vez que gostei dele desde o longínquo Harry Potter and the Philosopher's Stone. Passou livros a ser usado como parvo, imaturo e arma de comic relief, mas a J.K. lá achou que o que era demais enjoava e ofereceu-nos um Ron por fim aceitável. Não sem um último acto de rotunda estupidez e deslealdade, obviamente agraciado com um acto heróico e uma desculpa válida alguns capítulos mais tarde. O Harry... Bem, o Harry nunca foi senhor das minhas preferências. Gosto dele e tolero-o como faria ao simpático animal de estimação de um qualquer amigo meu. Mas não me arrebata o coração. De vez em quando irrita-me, o resto do tempo tenho um interesse meio vago e desprendido na sua pessoa. Neste livro, irritou-me mais do que me interessou. Bem, claramente que me interessou, porque se houve livro centrado no garino da cicatriz foi este! Não havia escape possível. Mas o Harry cometeu aquele erro imperdoável que me fazia ter vontade de esbofeteá-lo cada vez que tinha de ler algumas linhas sobre o assunto: duvidou do Dumbledore. Pelos motivos mais parvos. Então o homem foi professor dele, ele sempre foi tão obcecado com a sua cicatriz que só falava de si próprio com o homem e depois tem o DESPLANTE de ficar furioso porque o Dumbledore não lhe contou como ele tinha sido na sua juventude?! Merecia era dois sopapos para acordar para a vida! E, claro, eu não reajo muito bem a personagens com o Mundo às costas de que toda a gente depende e cujo valor é exaltado infinitamente, mesmo quando eu olho para ali e só vejo banalidade.

O Dumbledore é tipo o Gomes Freire de Andrade ou o Frei Luís de Sousa. Daqueles ausentes mais presentes que alguns que estão efectivamente a passear-se por ali! Eu sempre adorei o Dumbledore. Acho que um velho sábio e bondoso é daqueles arquétipos de personagem a que ninguém resiste. Principalmente quando se tem a coolness do Dumbledore. Para minha grande dor de coração, a J.K. achou que seria um inovador plot twist lançar dúvidas sobre a grandeza e seriedade deste brilhante senhor. Custou-me bastante, embora eu, insultando o Harry volta e meia, me tivesse mantido sempre fiel à ideia que construí do velhote. Eu tinha razão, ao contrário do Harry, mas isso não me poupou à leitura de um capítulo no campo do espiritismo em que o Dumbledore aparece e fala e é quase visita de médium (ah! trocadilho engraçado) e em que, mais uma vez, é feita a exaltação das qualidades do Harry até à exaustão, com a agravante aterrorizadora em que o Dumbledore se declara inferior ao puto. Não acho normal. E chora e tudo e desboca-se ali dos seus segredos... Enfim, acho bem que nos dêem um capítulo em que as pontas soltas são explicadas, escusavam era de pôr o Dumbledore tão off-character que me estava a fazer lembrar uma mistura de Professor Trelawney com o Hagrid quando está deprimido. Ainda assim, postos de lado os sustos, confirma-se a genialidade do Director de Hogwarts, confirma-se a excelência da sua mente, da sua capacidade de avaliação de carácter, é de novo realçada a inteligência dos seus planos. És grande, Dumbledore!

E agora falando do meu herói pessoal... Esse grande personagem que os meus putos do ATL gozavam comigo por eu gostar (quando se tem 9 anos, é muito pouco natural gostar-se dos maus da fita... ou dos dúbios, vá lá)... Severus Snape. Eu nunca duvidei dele. Eu tinha fé que aquela passagem para o lado negro tinha muito que se lhe dissesse além das aparências. Mais ainda, se a passagem para o lado negro se confirmasse, eu não queria saber, porque eu adoro o Snape à mesma! Mas foi muito bom, ver confirmado o meu instinto, que agora posso ir sacanamente esfregar nos egos inchados de quem me gozou e falou mal do Snape. Foi muito bom ver o único que alguma vez teve tomates para baixar a bolinha ao Harry ser recompensado por isso. Foi muito bom ver o Harry ter um momento em que não era o puto mega-herói, era apenas um puto que de facto estava redondamente enganado sobre uma pessoa, porque não se pode estar sempre certo. O Snape é excelente, apareceu demasiado pouco para o meu gosto e exigência, mas esteve em grande e merece todos os louvores possíveis. Ele é, na sombra, no sofrimento, na dureza das suas tarefas, o verdadeiro e marginalizado herói desta saga. Eu dou-te valor, homem! A sério que sim!

Ah, ia borrifar-me para as restantes personagens, mas acho que os Malfoys merecem uma nota digna de registo. Eu sempre achei que aquela família tinha potencial e teve! Das cenas mais fortes e bonitas que já li da Rowling! Uma mulher loira, inicialmente não identificada, a baixar-se para sentir o pulso ao Harry, a respiração no pescoço, uma pausa... "O meu filho?" Lindo. Narcissa Malfoy é do melhor.

Os Weasleys pouco ou nada apareceram, as gentes da Ordem também. A Bellatrix prometeu mais do que cumpriu. O Neville cresceu brilhantemente e o que eu não dava para se ter visto maior destaque da Luna Lovegood na saga!

Quanto às mortes... Bem, não chorei baba e ranho por nenhuma. Eu estava convencida que o Harry ia morrer, mas a J.K. lá se livrou de escrever Harry Potter and the Honeymoon doutra maneira. Fiquei muito triste com a morte do Dobby e todos aqueles momentos do funeral. A morte do Fred também foi pesadota, principalmente quando, parágrafos antes, ele estava a rir e divertido com o Percy, recém-aceite na família depois de anos de estupidez crónica.

Para terminar esta coisa comprida, vou falar do epílogo. Como já deve ter dado para entender pelas minhas preferências pessoais, eu não sou dada a clichés e a adorações de personagens para os quais a maioria tem queda. Como tal, ler um epílogo de "19 anos depois" com toda a gente casada e com filhotes... Pah, wtf?! É que, para cúmulo, a única coisa que se percebe é que X se juntou com Y e pariu filhos com tais nomes! Não se entende que fizeram eles da vida, o que são agora, como ganham a cheta, nada! Monumental anti-clímax depois daquele fogo-de-artifício todo da 2ª metade do livro! E, já agora, o Harry tem um puto chamado Albus Severus? E homenagem ao Sirius, não? Se há coisa lamechas e barata é dar aos filhos nomes em homenagem a terceiros. Que são os filhos todos do Harry, portanto, a Ginny não teve voto na matéria.

Bem, isto deve parecer que eu odiei o livro, mas não, não se deixem enganar pela fogosidade dos meus parágrafos! Gostei do livro, sim senhora, só não achei que fosse uma obra-prima. Mas Potter é Potter e dá sempre boa e viciante leitura, por isso é para ler e comprar, que vale a pena ter a saga à mão.

Peço desculpa pelo post comprido e algo confuso e incoerente, mas foi o que foi saindo. Tenho a sensação que me esqueci de mencionar algumas coisas, mas pronto, não pode sempre sair tudo perfeito.

MJNuts

Nota: optei por pôr os nomes dos livros em inglês, porque ainda não há título português para este último. Não foi um golpe elitista de uma louca pseudo-intelectual. x)